DIFICULDADES SEM TRAUMAS, JOSÉ ORLANDO PEREIRA DATO

DIFICULDADES SEM TRAUMAS

José Orlando Pereira Dato

DIFICULDADES SEM TRAUMAS

Copyright© 2011 by José Orlando Pereira Dato

Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida sem autorização prévia e escrita de José Orlando Pereira Dato. Dezembro de 2011

Design da Capa: Rodrigo Beck Lenz

Diagramação/Revisão: Michele Beck Schröer

Ilustração: Mariana Beck Dato

Tratamento ilustrações: Rafael Beck Lenz

Impressão: Romildo Pereira – Gráfica São Jorge

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Michele Beck Schröer – CRB 14/ 1059)

 D851d         Dato, José Orlando Pereira

Dificuldades sem traumas / José Orlando Pereira Dato; ilustrações de Mariana Beck Dato. – Bicas, Minas Gerais, 2011.

160 p. : il. color.; 21cm.

1. Biografia. I. Título.

CDU  929

Dedico esse livro à Iara, minha esposa, pelo carinho, companheirismo, amor e cumplicidade dedicados ao longo desses vinte e cinco anos. Pela capacidade de se doar à causa alheia.

Por me acolher em minhas derrotas e fazer mais brilhantes as minhas vitórias. Minha maior crítica e incentivadora.

Pelos quatro filhos que merecemos e pelas  pegadas que tem deixado a eles durante a nossa caminhada.

Por me fazer acreditar sempre em dias  melhores e fazer cada dia o nosso melhor.

Enfim, por me proporcionar a capacidade de superar as dificuldades sem trauma.

Agradecimentos

Aos meus filhos, irmãos, cunhados, sobrinhos, tios, primos, amigos e todos aqueles que fizeram parte da minha história direta ou indiretamente.

Em especial agradeço à minha filha Mariana pelas ilustrações, à minha sobrinha Michele pela correção e diagramação, ao meu sobrinho Rafael pelo tratamento das imagens, ao meu sobrinho Rodrigo pela ilustração da capa e ao meu primo Romildo pela publicação.

Homenagem

À minha mãe que com doçura, encanto e harmonia, foi capaz de ignorar o próprio sofrimento para transformar os meus dias em um aprendizado através da doação, da perseverança e do positivismo.

Diante das vicissitudes da vida, partia sempre de seu coração um gesto de amor e fé por dias melhores.

Muito mais que palavras, um exemplo de vida.

Uma grande mulher que ao lado de meu pai e nove filhos, deixou um legado de que o amor é a base para grandes ensinamentos e superação.

Sua curta existência entre nós mostrou que o que importa é o quanto fazemos e não o quanto vivemos.

Agradeço a Deus a oportunidade e a graça de ter a mãe que tive, muito menos tempo do que eu gostaria, mas o suficiente para construir a base onde fundamentei os meus princípios éticos e morais.

E o resultado, um pouquinho eu conto aqui!

Sumário

Prefácio ……………………………………………………………………………………………….13

Onde tudo começou…… ……………………………………………………………………….15

Mudança para Bicas……………………………………………………………………………. 17

Grupo Escolar Coronel Souza…………………………………………………………….. 19

Subemprego………………………………………………………………………………………… 21

O pé por um fio……………………………………………………………………………………..23

Um dia feliz………………………………………………………………………………………….. 24

Criatividade e bom humor com a proteção dos cabelos…………………… 26

Uma rara semente!!!……………………………………………………………………………..27

Partes da adolecência……………………………………………………………………………29

Convivência e adversidades………………………………………………………………….30

Água Santa…………………………………………………………………………………………….. 32

Férias Felizes…………………………………………………………………………………………. 35

Programas Impagáveis…………………………………………………………………………. 37

Um pensamento por dias melhores………………………………………………………40

O pior retorno………………………………………………………………………………………….42

 Retomando a vida…………………………………………………………………………………. 44

Sábia decisão…………………………………………………………………………………………… 45

Um velho recomeço………………………………………………………………………………….47

Uma possibilidade inesperada………………………………………………………………..49

Uma data para ser lembrada……………………………………………………………………51

Finalmente um desfecho diferente………………………………………………………….53

Ampliando os meus horizontes………………………………………………………………..55

Um retorno, várias vitórias………………………………………………………………………57

Mais um importante desafio…………………………………………………………………….59

Um reencontro espiritual………………………………………………………………………….61

Uma cerimônia acima das minhas expectativas…………………………………….64

Uma história a dois……………………………………………………………………………………65

Encomenda………………………………………………………………………………………………..66

Uma dádiva, um compromisso………………………………………………………………..67

Uma visita inesperada, a dor!………………………………………………………………….69

Uma busca desesperada…………………………………………………………………………..70

Uma batalha perdida………………………………………………………………………………..73

De volta à vida…………………………………………………………………………………………..74

Uma nova chance……………………………………………………………………………………..76

Coisas que só a espiritualidade explica…………………………………………………..78

Na contramão da razão…………………………………………………………………………… 80

Vencida esta etapa, outra pior iniciou…………………………………………………….81

Nas mãos de Deus…………………………………………………………………………………….83

Recomeçando… Mudança de hábitos………………………………………………………86

A mesma estrada, mas caminhando diferente…………………………………….. 89

Dias tempestuosos……………………………………………………………………………………92

Uma mercedes em minha vida………………………………………………………………. 93

Reatando laços……………………………………………………………………………………. 93

Batalha final? Talvez!………………………………………………………………………… 96

Uma indesejável companheira………………………………………………………….. 100

O início da maratona………………………………………………………………………… 101

Ineficaz, mas agradável……………………………………………………………………. 103

Seria engraçado se não fosse trágico!……………………………………………….. 106

Pausa para renovação de expectativas!…………………………………………….. 108

Primeira das muitas estadas……………………………………………………………… 112

Bola na trave…………………………………………………………………………………….. 114

O ser humano como prioridade………………………………………………………… 116

Autodidata em enfermagem……………………………………………………………… 118

Sinais de cansaço……………………………………………………………………………… 120

Um problema realmente grave…………………………………………………………. 122

Somando forças………………………………………………………………………………… 123

A gota d’água…………………………………………………………………………………… 125

Por isso, bola na trave………………………………………………………………………. 127

Ironia do destino………………………………………………………………………………. 129

Família a toda prova…………………………………………………………………………. 133

Casos pontuais………………………………………………………………………………….. 135

Por que escrever?……………………………………………………………………………… 138

Meu histórico……………………………………………………………………………………. 139

Uma grande sacada ………………………………………………………………..145….

Uma questão de opção……………………………………………………………………… 146

Introspecção……………………………………………………………………………………… 147

Quem sabe uma semente!…………………………………………………………………. 150

A força do destino…………………………………………………………………………….. 151

PREFÁCIO

Nesta obra narro fatos conhecidos por muitos e outros nem tanto. Muita coisa ficou por dizer, pois aqui relato parte de minha vida.

Este período traz ao conhecimento do leitor personagens reais, o que ficou por dizer e aqueles que fizeram parte desta história em outras circunstâncias e que não foram inclusos nesse contexto, certamente não foi por esquecimento, mas por não atender a linha de propósito de exposição do mesmo. É claro que teria muito mais a dizer sobre aventuras amorosas, confidências e aprontações das mais variadas. Quem sabe um dia alguém tome essa iniciativa e me inclua em suas aventuras. Prepotência ou não, aí está um pouquinho de minha caminhada, com passagens merecedoras de comentários.

José Orlando Pereira Dato

ONDE TUDO COMEÇOU

Aos trinta e um de dezembro de mil novecentos e sessenta e um, às nove horas e quarenta minutos, eu chegava a esse mundo. Provavelmente numa manhã sombria e fria como é peculiar, no Alto da Serra na cidade de Petrópolis, Rio de Janeiro.

Segundo minha mãe, morávamos numa casinha simples de um quarto, sala, cozinha e banheiro, dessas germinadas ou “parede meia” como dizem alguns.

A casa do outro lado pertencia a uma amiga de meus pais, a D. Margarida que veio a ser minha madrinha e parteira, num tempo em que era mais comum fazer parto em casa.

O acesso era por uma escada de terra esculpida no morro e calçada por pedregulhos.

Em dias normais o desafio da escalada era a serração que cobria o alto da serra, mas em dias de chuva era pior.

Assim conta meu pai, pois não fiquei por lá tempo suficiente para conviver com a serração e muito menos o lamaçal que cobria as escadas em dias chuvosos.

Do alto do morro era possível avistar o asfalto que cortava o bairro onde transitavam pedestres e veículos, grande parte deles em direção à Rede Ferroviária, incluindo meu pai que também trabalhava lá.

Ali fiquei até os quatro anos de idade quando por motivo de transferência de meu pai, por proposta da Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA), fomos morar em Bicas, cidade do interior mineiro.

MUDANÇA PARA BICAS

Já ouvi vários relatos de meus pais da época em que chegamos por aqui, onde viemos morar e como foi feita a mudança; era um tempo em que os trens corriam sobre os trilhos e o apito da Rede Ferroviária marcava os horários intercalando com o sino da igreja.

Mas trago lembranças dos meus cinco anos no jardim de infância que funcionava nas dependências da Igreja Matriz São José. Recordo-me daquele uniforme vermelho, do suspensório trazendo o nome do aluno numa tarja na altura do peito, por baixo uma camisa de tricoline branca com  botões caprichosamente costurados e passados conforme o regulamento da escola. Não consigo me ver muito dentro desses padrões, já que sempre fui uma criança ativa. Encapetada não seria um termo adequado para um aluno da escolinha que usava as dependências da Igreja, mas enfim, acho que eu não me mantinha tão engomadinho após a segunda-feira.

Morando na parte alta da cidade, tinha que atravessá-la para ir à aula. Cada dia era uma aventura, pois não me saiam da cabeça aquelas histórias assustadoras, como a do homem de roupas esfarrapadas que perambulava pelas ruas e pegava crianças malcriadas, ou a do homem que andava bêbado e fazia sabão de crianças que desobedeciam a professora e por aí afora.

A minha infância foi marcada por situações desse tipo que foram superadas com o passar do tempo. Muitos personagens que eu poderia citar com apelidos que fazem parte de minhas histórias contadas hoje a meus filhos em rodas de bate-papo familiar.

Em seguida veio o primário no Grupo Escolar Coronel Joaquim José de Souza.

GRUPO ESCOLAR CORONEL SOUZA

 Tempo em que uma professora lecionava todas as matérias, normalmente com uma régua de madeira na mão, com cara de poucos amigos para alguns e a diretora era considerada a mulher mais brava do local. Eu não entendia como algumas meninas ainda levavam flores e docinhos para elas, assim como não compreendia porque o meu nome e os de alguns colegas de minha turma não apareciam nos exemplos dos problemas de matemática ou nos textos de português.  Por exemplo: André tinha doze balas emprestou para Fabíola três com quantas ele ficou? Ou um texto qualquer, do tipo: Jaqueline acordou cedo, ligou para Franciele sua amiga e foram passear. Não me recordo de nomes como o meu, do PC, do Dicá e do Fernando.

Será que era porque nossos pais eram ferroviários e os outros pais dentistas, médicos e comerciantes?

Deixa pra lá, eu não prestava muita atenção nas aulas mesmo…

Mas foi nessa escola onde fiz amizades que permanecem até hoje.

Bons tempos aqueles… Um pátio enorme para brincar e pouco compromisso com o estudo, afinal, eu não sabia muito bem ainda o por quê de estudar tanta coisa que até então não me servia para quase nada.

Claro que havia a cantineira bacana e as professoras como a D. Iara, mãe do Paulo Ricardo da minha turma que sabia como nos convencer a ficar na sala e copiar a matéria. A D. Luzia era a mais brava e a que mais nos dava atenção na hora do lanche, talvez por morar no mesmo bairro que eu, não sei.

SUBEMPREGO

Aos doze anos eu vendia picolé nas ruas e amendoim na porta do cinema, aprendi que era melhor ganhar dinheiro do que estudar.

Então não parei mais. Aos quatorze fui trabalhar em uma padaria onde o expediente começava às quatro e meia da madrugada e encerrava ao meio-dia. Nesta época eu já estava cursando o primeiro grau no Colégio Estadual Deputado Oliveira Souza e tinha que sair correndo para a aula que começava às treze horas.

A partir desta idade percebi que estudar era preciso.

Apesar de muito novo, eu já mostrava comprometimento com o trabalho, a ponto de ter credibilidade para arranjar uma vaga de empacotador de biscoitos ao meu irmão Cacau.

Não ganhava lá essas coisas, mas trabalhava em horário reduzido das oito ao meio-dia. Divertíamos-nos muito durante o expediente, às vezes uma briguinha com os sobrinhos do dono que volta e meia apareciam por lá para perturbar a ordem.

A minha jornada de trabalho era bem puxada. Fiquei pouco tempo trabalhando por lá até aparecer uma oportunidade que me levou à cooperativa de produtores de leite, juntamente com Mário, meu irmão, que apesar de ser mais novo, também já trabalhava.

O nosso horário não era muito diferente da padaria. Vendíamos leite numa carroça-tanque puxada por cavalo, e às cinco horas da manhã tínhamos que buscar o cavalo no pasto para arriá-lo, preparar a carroça levando-a até a cooperativa para encher o tanque e aí sim, sair pelas ruas da cidade.

Tínhamos que chegar cedo para garantir o tradicional café com leite de nossos fregueses, além é claro, dos queijos, iogurtes, doces, etc. Era muito divertido porque conhecíamos muita gente e andávamos de carroça o dia todo pela cidade. Uma semana quem fazia a parte alta da cidade éramos, eu e Mário, na outra, Davi e Bahia e vice-versa, em pouco tempo éramos conhecidos por todos. Com sol ou chuva, lá estávamos nós.

O PÉ POR UM FIO

Há uma passagem engraçada que aconteceu com o Mário. Por andarmos no meio do mato atrás dos animais de madrugada, às vezes no escuro ainda, pisando em tocos, pedras e buracos resolvemos então comprar um kichute. Quem não conheceu, o kichute era um calçado de lona com bico e travas de borracha muito usado na época da adolescência para ir à aula, jogar bola e trabalhar. Então compramos o tal calçado e logo no primeiro dia de uso por um descuido, a carroça passou em cima do pé do Mário rasgando-lhe o bico do calçado novo. Ele ficou indignado dizendo que era muito azar, logo naquele dia que estava de kichute novo… como se preferisse perder parte do pé do que perder o tal calçado… é mole? Ainda num tempo em que não tínhamos carteira assinada e nem assistência médica… nem pensar em arriscar em se machucar. Conciliar estudo com trabalho e a pouca idade, era um desafio diário.

Dormi muito sobre os cadernos na sala de aula, mas contava com a paciência e boa vontade de minha irmã mais velha, Ana Amélia, para me explicar em casa a matéria dada naquele dia.

UM DIA FELIZ

O dia era muito cansativo, mas como todo adolescente, ainda tinha muita energia para queimar jogando bola, correndo atrás de boi no pasto, brincando de capoeira na rua com os colegas e muitas brincadeiras que hoje em dia nem se ouve falar mais. Fazíamos coisas que se me contassem hoje eu não acreditaria. Imaginem que após uma semana dura de trabalho, tínhamos o merecido direito a um lazer especial.

A nossa maior predileção e de nossos amigos se tornava evidente quando se tratava de um açude, uma cachoeira ou ir ao BTC, um clube com piscina e quadra de futebol de salão onde pagávamos em torno de cinco reais para desfrutar daquele ambiente. A quadra era de cimento com uma camada levemente esburacada por cima. O bar era um balcão de cimento de uns dois metros de comprimento, onde fazíamos o pedido dando lugar ao próximo. Eram três as mesas que depois de ocupadas, os clientes se espalhavam em volta até onde o zelador do clube permitisse. A piscina era enorme, mas a água variava na sua coloração ora estava azul, ora verde.

Para nós isso não fazia diferença alguma, o que contava era a quantidade de cloro que agarrava em nossos longos cabelos, pois nas décadas de setenta e oitenta, a moda eram os cabelos longos e até por economia de corte, aquela moda para nós era tudo de bom.

Mas como fazer para evitar aquela plasta de cloro em nossos cabelos tão longos e queimados pelo sol?

Descobrimos uma receita caseira infalível! Antes de sair de casa para o clube, umedecíamos um pouco os cabelos e passávamos óleo de cozinha… isso mesmo!! Esse óleo usado para cozinhar, nós passávamos em todo o cabelo e íamos para a piscina, não havia cloro que grudasse naquilo! Tínhamos que chegar entrando logo na água porque se o sol esquentasse demais aquele óleo, o cheiro ia aumentando e era proibido passar bronzeador e entrar na água, imagine óleo de cozinha…

Criatividade e bom humor com a proteção dos cabelos

Já para tirar aquela me leca em casa, não era tão difícil.

Desenvolvemos por conta própria um procedimento que dava muito certo e as namoradas nunca reclamaram. Lavávamos a cabeça com sabão ou sabonete, depois com xampu e para amaciar e dar aquele cheirinho, o amoso creme rinse.

Só um detalhezinho, na época lá em casa, não se via vidros de xampu, não sei se por ocasião do orçamento ou porque na época não existia. O fato é que íamos até a venda do Sr. Milton ou do Sr. Pedro Manco, que tinha esse apelido por usar umas botas enormes e puxar uma perna, e comprávamos uns mini travesseirinhos de xampu e creme rinse. Eles ficavam em um balaio no canto da venda com uma variedade de xampus para todos os tipos de cabelos, só o creme rinse é que era aquele rosinha.

Quando nadávamos nos açudes e nas cachoeiras, não era necessário tanto cuidado, era só o banho habitual e pronto, um desodorante daqueles do vidrinho de plástico marrom que servia para família toda ou como sugeria a propaganda na televisão…

Uma rara semente!!!

Imagino hoje a preocupação de minha mãe, na época com oito filhos. Lá em casa era uma escadinha, a diferença de idade de um para o outro girava em torno de um ano e meio a dois anos no máximo.

Haja paciência para dar conta dessa molecada, mas minha mãe dava! E com o seu jeitinho e sabedoria, nos ajudava a lutar na época contra o alcoolismo do meu pai. Com certeza, a batalha maior era dela… Mesmo assim, ela ainda tirava tempo para todos nós, além de ser voluntária nas obras do Centro Espírita Benedito Guerra, onde fazia limpeza no salão de reuniões e apesar de pouco estudo, ela fazia palestras como poucos. Era sem dúvida um exemplo a ser seguido.

Nossa casa era muito humilde, orçamento apertado. Dormíamos eu, Mário, Cacau e Paulinho numa cama de casal, Jorge que era mais velho e maior, dormia em um sofá e as meninas, Ana Amélia, Uta e Mônica no mesmo quarto em beliches. Mamãe ainda teve mais uma filha, Aline, a temporona, a raspinha do tacho como se dizia.

Nosso guarda-roupa era comunitário, calçados e roupas eram compartilhados por todos, desde que servisse é claro.

Eventualmente minha avó paterna que morava em Brasília, vinha nos visitar e trazia uma mala cheia de roupas que já não serviam nos primos de lá e aí fazíamos a festa. Modelos bem diferentes dos que usávamos habitualmente, mas só por ter vindo de Brasília já era o máximo.

Partes da adolescência

Eu e os meus irmãos éramos muito apegados, a ponto de namorármos meninas que fossem amigas para frequentármos os mesmos ambientes.

Tínhamos que cumprir os mesmos horários na casa das namoradas, que na época só podiam namorar das dezenove às vinte e duas horas, pois moça direita não ficava namorando até tarde para ficar falada.

O bom disso tudo é que sobrava tempo para nos reunirmos com amigos na praça da cidade e decidir o que fazer no resto da noite. Se eu fosse contar tudo, passaria horas e horas escrevendo, mas o fato é que eu e meus três irmãos saíamos sempre juntos com namoradas ou sem elas.

Já o Jorge, o mais velho, fazia SENAI desde muito cedo, pois achava que era mico sair na companhia daquela pirralhada e preferia seus colegas que eram da mesma idade, afinal, eram 4 anos de diferença.

Por várias vezes nos apertávamos em seis, chegando até oito pessoas dentro de um fusquinha vermelho de um de nossos amigos, só para chegármos juntos ao baile numa cidade próxima a nossa. Bons tempos!

Corríamos riscos pela imaturidade no trânsito, mas não havia nada de droga e nem bebedeira porque saíamos para dançar, paquerar e dar boas risadas. Eram como as partidas de futebol, o melhor era o pós-jogo. No dia seguinte a diversão, pois a fofoca era apontar os defeitos da paqueradas de um ou os comentários com quem o outro havia ficado na última noite.

Convivência e adversidades

Todos nós por força da necessidade começamos a trabalhar muito cedo e em dias de festa, tínhamos um dinheirinho para comprar um tecido para minha irmã Ana Amélia, que apesar de muito nova, já era fera na costura, fazer uma roupa bacana e assim participávamos de tudo que gostávamos.

A dificuldade da época nos ensinou a ser resignados porém, lutadores versáteis que aprenderam a compartilhar, a respeitar o espaço alheio e a conquistar o nosso.

A nossa relação com os vizinhos nos tornava quase uma família, principalmente D. Eugênia, a quem eu chamava de vó. Eu passava horas em sua casa ouvindo suas histórias. Criada na roça ela tinha muitos causos para contar, fazia umas broas de milho e alguns doces que dão água na boca só de lembrar…

Os acidentes domésticos e os muitos que eu sofria na rua, era ela com sua medicina natural quem me curava. Tenho várias cicatrizes tatuadas pelo corpo e cada uma com sua história.

Eram os vizinhos que acompanhavam nossos problemas mais de perto, pois não havia cerca dividindo nossas casas, houve um tempo em que nossos lotes se confundiam, na hora do aperto era pra lá que eu corria.

Tínhamos muitos amigos em comum e fazíamos grandes aventuras juntos, como ir à Água Santa, um passeio muito comum por aqui, principalmente para religiosos. Nos dávamos muito bem com todos.

Água Santa

Conta a história que naquele local há muito tempo era passagem de tropeiros, e por ter água fresca em abundância tornava-se parada obrigatória.

Certa vez um dos tropeiros muito doente e com feridas pelo corpo, viu-se impedido de seguir viagem, então resolveu passar seus últimos dias ali naquela estância. Dias depois, ele percebeu que suas feridas estavam se fechando após tomar aquela água que lhe trouxe a cura, por isso o nome Água Santa. A notícia correu o país e hoje vem gente de todos os cantos do Brasil. Os católicos em datas específicas, promovem missas e leilões, pois ali existem imagens de santa, capelinha e um espaço coberto apropriado.

Escrevi até um poema relatando um pouco da história de Bicas que passa por aqueles trilhos há muitos e muitos anos.

O poema é intitulado:

BICAS ABENÇOADA

DESDE OS TEMPOS DAS TABOAS

ONDE OS TROPEIROS FAZIAM PARAGENS,

DAS TRILHAS MARCADAS POR PATAS

DOS ANIMAIS QUE ALI PASSAVAM,

DO LUGAREJO FORMADO

POR INCANSÁVEIS TRABALHADORES

NAS PLANTAÇÕES DE CAFÉ E NA CRIAÇÃO DE GADO

HOJE TE VEJO EMANCIPADA

UMA LINDA CIDADE FORMADA,

SUA MAIOR RIQUEZA É SEU POVO Ó BICAS ABENÇOADA…

DE CORAÇÃO E BRAÇOS ABERTOS

ÁQUELES QUE AQUI CHEGARAM

ABRIGASTE COM CARINHO

COMO UMA MÃE DEDICADA TE DEDICO ESSES VERSOS Ó BICAS ABENÇOADA…

Esse lugar fica a uns dezoito quilômetros de Bicas e de vez enquando costumávamos fazer caminhada com amigos até lá. Eu, Mário meu irmão, Elso, José Maria o Bahia, e José Alberto o Jhones, éramos parceiros de aventura.

Com o tempo novos amigos surgiram nos acompanhando em novas aventuras.

Amigos com apelidos tão conhecidos por aqui que muitos nem sabíamos o nome de registro… Picareta, Sacatripa, Tatu, Bicanca, Pimenta, Breto, Ratão e por ai vai.

Eram sempre passeios recheados de aventuras e boa conversa durante o trajeto, hoje vejo meus filhos e sobrinhos realizando estes mesmos passeios, acordando de madrugada como é tradição e relatando o passeio assim como eu fazia há trinta anos.

É muito bom reviver tudo isto, às vezes eu levava um facão e corda para apimentar a aventura e adentrar as matas que margeavam o percurso. Léo, Tuca e Dedé, meus sobrinhos que foram companheiros em uma destas aventuras e ainda hoje permanecem na roda de amigos, nos churrascos de família e aí o assunto vem à tona acompanhado de boas risadas.

Férias Felizes

Lembro-me, ainda muito moleque, quando íamos passar férias na casa do Tio Gerson, irmão da minha mãe, que morava em Dona Eusébia. Nossos primos regulavam a idade conosco: Romildo, Marília, Marina e Josélia. Eles moravam em uma fazenda com muitos bois, cavalos, frutas, campo de futebol, açude e grande espaço para diversão.

Na verdade ficávamos no tio Gerson, mas a vovó Memela, vovô Totõe e o tio Galileu eram todos vizinhos. Tia Dária e tia Dunalva, irmãs da mamãe, moravam na casa a poucos metros.

Na época, era comum ter muitos filhos, só de primos somavam dezessete, com idade próxima a nossa.

Coitada de minhas tias e tios, pois imagino o que eles passavam conosco!

Guardo com muito carinho as visitas que meus tios, irmãos de minha mãe, nos faziam, vindos de tão longe como o tio Geraldo que viajava de caminhão e quando menos esperávamos ele aparecia. O tio Hélio que tinha um aperto de mão inconfundível, chegava a juntar nossos dedos com aquele jeito de cumprimentar que era só dele. O tio Gerson e o tio Galileu num gipão desses antigos ou numa rural velha que nem me lembro a quem pertencia, chegavam a Bicas com produtos da roça que cultivavam, na época em que a maior parte do trecho era de chão. Hoje eu entendo como uma declaração de amor, pois tanto sacrifício sempre davam um jeitinho de estarem se visitando, penso que minha mãe deveria ser uma boa irmã.

Quando o Mário e a Uta, que são gêmeos nasceram,  Mário esteve muito doente e a tia Dilda cuidou dele até ficar bom. Na doença de minha mãe, foi a tia Dária quem a cuidou em sua fase terminal.

Hoje, visito muito mais os meus primos que adoro de coração, e sou visitado por eles, mas não temos a grandeza de coração e nem o desprendimento que meus tios tinham, embora nos amemos também.

Programas Impagáveis

 Tínhamos sempre um trocadinho no bolso, vivíamos no subemprego, mas arranjávamos algum para fazermos uma viagenzinha curta, pagar a entrada do cinema e assistir com a turma, filmes de lutas ou faroeste.

Na saída da sessão era aquela festa, cada um interpretava um personagem e revivia o filme até chegar em casa.

E os bailes? Os jovens de hoje acham que estão criando modalidades de relacionamento quando dizem que estão ficando. Sinto decepcioná-los, mas na minha adolescência essa prática já existia.

A maioria de nós tinha namorada, aquela que os pais conheciam e aprovavam, pois sabiam a procedência do pretendente na família e no trabalho. Tinha que cumprir sempre aquele horário estipulado pelo sogro das dezenove às vinte e duas horas, pois era essa a modalidade de relacionamento para casar.

Com a namorada fazíamos programas de maiores investimentos, como ir à bailes com música ao vivo, bandas profissionais como Painel de Controle, The Feveres, Conjunto Soma, Belchior e outros artistas que eram sucesso na época.

Quando não tinha baile na cidade ou não havia dinheiro para tal investimento, o que fazer depois das vinte e duas horas? Aí é que protagonizávamos o melhor da festa.

Na época, num espaço de uns trinta metros quadrados, o Zé Pequeno que deve ser o nome de registro, porque ninguém o chamava por outro nome, promovia bailes ao som de um bom toca-disco. Warlei revezava com o Ailton, a responsabilidade de selecionar o vinil a ser tocado.

Quando a casa estava cheia minha turma nem pagava entrada, pois dominávamos na dança e tínhamos nossas “ficantes” que só entravam na festa após nossa chegada.

Eu, Jhones e Magela, irmão dele, tínhamos mais molejo e arrebentávamos nas músicas de embalo, na época era o Soul Music que ditava o ritmo. Jhones e o Magela traziam as novidades, pois trabalhavam em Petrópolis, cidade próxima.

Passávamos horas ensaiando no salão do Zé Pequeno e todos paravam para assistir nossa performance.

Ganhamos muitas garrafas térmicas e saboneteiras qu e eram as p rem iações d os concu rsos promovidos por lá.

Mas quando tocava uma música lenta, aí todos nós entrávamos em ação, cada um com sua “ficante”. Mário, meu irmão, Picareta, Dilim, Sacatripa, Arildo e Elso, só nossa turma quase lotava o salão, além das meninas é claro.

Quando queríamos variar o ambiente, na rua mais abaixo tinha o forró do Terra Fria, um vizinho nosso e colega de trabalho de meu pai de longa data que trazia consigo esse apelido por ser de Petrópolis.

Um ambiente frequentado por pessoas mais maduras e eventualmente por jovens acima dos vinte anos em busca de uma aventura no final da noite, como era o caso da turma do meu irmão Jorge.

Minha turma aparecia por lá mais por curiosidade, mas a do Jorge era assídua.

Jorge, José Nilton o formigão, Painha, Luiz Tatu e o Neném, eram presença garantida depois das vinte e duas da noite, após aquele horário do namoro para casar lembra?

As “ficantes” do forró eram mais liberais, mas não cabem aqui comentários.

A maioria dos frequentadores eram pessoas humildes que trabalhavam duro a semana inteira e no fim de semana iam ali para se divertir, tomar umas e outras e de vez enquanto saiam uns “risca facas” também. Era muito comum sairem brigas por razões diversas e até sem motivo algum, inclusive entre os mais jovens.

Meu irmão Jorge mesmo quando começou a frequentar o forró por ser vizinho e de boa família, entrava de graça e posava de galã dentro do baile.

Com o passar do tempo chegou a ser proibido de entrar no forró de tanta briga que ele se envolvera. Só perdia para o Laninho, irmão do Dilim, em números de encrencas arranjadas.

Tínhamos nossas cumplicidades e fazíamos um pouco de tudo juntos.

Um pensamento por dias melhores

Depois de ralar muito como servente de pedreiro do Jorge, meu irmão mais velho e meu cunhado Dilim, aos dezessete anos, finalmente arranjei um emprego na fábrica de Máquinas Guarnieri, onde tive o meu primeiro registro na carteira de trabalho e atualmente o meu filho trabalha.

Como bom aprendiz, logo aprendi o ofício de soldador, na época só se usava solda elétrica.

Com a extinção do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), essa era e ainda é a melhor opção de aprendizado na área de mecânica industrial.

Por lá fiz boas amizades, amadureci como profissional e vislumbrei a possibilidade de abandonar aquela vida dura da construção civil e partir em busca de um mercado mais promissor.

Com a chegada da maioridade, senti o desejo de tentar a sorte em uma cidade grande, com a expectativa de achar por lá oportunidades melhores do que em Bicas. Parei os meus estudos na metade do segundo ano do segundo grau, hoje chamado de ensino médio. O fato de parar os estudos não era por ter um espírito aventureiro, muito pelo contrário, sou muito caseiro e muito família, mas sim por extrema necessidade.

Arrumei minha mochila e parti para novos desafios, agora longe de minha cidade, família e amigos.

Foram muitas idas e vindas, muitos “nãos” recebid os, m uitas portas na cara e m uitas voltas frustradas para casa.

Mas uma dessas voltas me marcou para sempre…

O pior retorno

Deixei minha mãe internada na Santa Casa de Misericórdia em Juiz de Fora. Éramos nove irmãos, mas nada podíamos fazer para amenizar o sofrimento dela, que se quer tinha o diagnóstico da doença.

Após dias de agonia ela veio a falecer, e só então ficamos sabendo do diagnóstico. Constava na certidão de óbito, Esclerodermia, uma doença com nome estranho e na época desconhecida por muitos médicos.

Uns três dias antes dela falecer, procurei um amigo da família, o Sr. Waldir, que estava sempre nos apoiando nos momentos difíceis e de decisão. Informei a ele que havia recebido uma convocação para fazer teste em uma siderúrgica, precisando me ausentar por uns quatro ou cinco dias. Ele concordou, pois de nada adiantaria minha presença ali naquele momento, já que minha mãe estava sendo assistida e os médicos não tinham sequer um diagnóstico… estava nas mãos de Deus.

Foi o que fiz, coloquei nas mãos Dele e segui viagem. Nesse dia eu estava em Ipatinga, com o propósito de fazer teste de soldador pleiteando uma vaga na Usimec, uma prestadora de serviços da Usiminas. Após ser reprovado nos testes, dois dias depois consegui agendar novo teste em outra empreiteira da Usiminas, onde não cheguei a comparecer, embora quisesse muito.

De manhã bem cedo saí do alojamento onde estava, ficando de favor por generosidade de pessoas que eu mal conhecia, indo em direção às dependências da tal firma, passei em frente à rodoviária e algo me dizia que o melhor que eu tinha a fazer era ir para casa. Mais uma vez com o sentimento de derrota.

E foi o que eu fiz. Tomei o ônibus, fui até Juiz de Fora e de lá para Bicas. Descendo do ônibus, veio ao meu encontro o Sr Waldir, que me prestou as condolências. Foi quando fiquei sabendo da morte de minha mãe que inclusive já havia sido enterrada, naquela mesma manhã em Juiz de Fora.

Ficamos sem chão, nossa casa sempre muito barulhenta e alegre apesar das dificuldades, naquele dia virou residência do silêncio e da tristeza. Tínhamos relativa independência e maturidade precoce, com certeza a vida continuaria quando a dor passasse, mas naquele momento isso não amenizava a nossa dor. Que dia difícil!

 Retomando a vida

Foi um choque, mas dias depois refletindo sobre os acontecimentos, percebi que era hora de seguir em busca de uma vida melhor profissionalmente, pois  perder de fato algo que importava, era a minha primeira vez. Então imaginei que nada poderia ser pior do que aquela perda e fui à luta. Mochila nas costas, e desta vez fui para mais longe.

O meu destino era Campo Grande, Mato Grosso do Sul, sentia-me uma rocha, fisicamente e psicologicamente.

Jovem que gostava de jogar futebol, praticante de capoeira, que levava uma vida muito ativa e dinâmica, sentia que nada poderia me deter, já que em termos de perda, o pior já havia acontecido.

Chegando em Campo Grande, logo arranjei um emprego em uma imobiliária por influência de meu primo Dilson, que me acolheu em sua casa e começou a ensinar-me as artimanhas da profissão de corretor na qual ele atuava e era gênio. Lá descobri que o mais importante que não perder um emprego, era eu não me perder.

No quinto mês, resolvi jogar tudo para cima, nem a beleza do Pantanal que na época certamente era mais verde do que hoje, com uma fauna rica, não foi o suficiente para me prender ali. E novamente resolvi voltar para casa sem o sucesso que esperava.

Sábia decisão

De Campo Grande fui ao Rio de Janeiro, Juiiz de Fora e por fim Bicas.

Chegando pela manhã no Rio para minha surpresa, só havia passagem para o final da tarde. Naquela época, o Rio já era uma cidade que exigia uma atenção maior com as pessoas e por onde andar. Fiquei muito preocupado em ficar por ali sozinho, sem ter para onde ir.

Por coincidência encontrei um amigão de infância na rodoviária que havia ido levar a namorada para embarcar para Juiz de Fora, contei-lhe meu drama.

Ele chamava-se José Alberto ou Jhones para os mais íntimos, por causa do filme Jhones o faixa preta. Gostávamos muito de dançar e ele aprendia uns pacinhos nos bailes do Rio e Petrópolis e levava para Bicas para me ensinar e arrasávamos nos bailes, na época o Soul Music era o que ditava a moda nas discotecas.

Nossa, era muito bom, a maioria dos jovens iam realmente pelo prazer de dançar e ver os grupos dançarem.

Bom, já que eu tinha tempo e ele também, ele me levou para conhecer alguns pontos turísticos do Rio, como a Quinta da Boa Vista e pela primeira vez eu conheci e andei de metrô.

O que parecia um pesadelo a princípio acabou se tornando um dia para ficar na história de nossas vidas, eu e meu amigo Jhones, que até hoje trabalha e reside no Rio de Janeiro.

Em Mato Grosso, estive perto de um lugar com muitas oportunidades e possibilidades de ganhar muito dinheiro, mas de outros desafios que minha formação humilde e inocente não me daria estrutura para dizer sempre não às tentações e o pior poderia acontecer, então sabiamente, resolvi abandonar tudo aquilo ali.

Apesar do sentimento de derrota, essas viagens que eu fazia eram muito legais, porque eram horas viajando, vendo o mundo passar pela janela e minha imaginação vagava me fazendo sentir um personagem num mundo de aventuras.

Em casa, alheios ao meu sentimento de derrota, os meus irmãos ficavam horas ouvindo minhas histórias da viagem, que é claro, eu usava da imaginação para dar um tempero de aventura e aumentar um ponto.

Um velho recomeço

Novamente em Bicas, fui trabalhar como ajudante de pedreiro com um cunhado e dois amigos de infância.

Eu, Dilim o meu cunhado, Jair hoje meu compadre e Pedrinho, os três irmãos e eu, formávamos o quarteto fantástico nas obras.

Hoje lembramos e damos boas risadas desse tempo, pois tínhamos que dormir na obra e, muitas delas não tinham cobertura, outras nem as paredes estavam prontas.

Nossa cama era improvisada com sacos de cimento vazios e o banho era num latão comunitário de duzentos litros que um caminhão pipa deixava para nós. Isso quando a chuva não atrapalhava o acesso do caminhão, transformando a estrada improvisada até a obra, num lamaçal. Então tirávamos parte da água para tomar, cozinhar e o resto era para banho.

O banho era com canecão, desses de lata de óleo de um litro feito por nós mesmos ali na obra para atender algumas de nossas necessidades como ferver água para o café ou alguma outra coisa do gênero. Primeiro nos molhávamos e depois o sabão era passado de mão em mão, em seguida o canecão e um enxaguava o outro.

O almoço era um macarrão feito por nós mesmos, servidos em bola, igual sorvete de tão grudento, mas o jantar era um pouco pior, comíamos a sobra do almoço requentado.

Não havia energia na obra, então só dispúnhamos de um radinho e aproveitávamos o escurecer para dormir cedo.

Ganhamos um bom dinheiro, trabalhávamos por produção e naquele alto de morro em São João Nepomuceno, onde o progresso não tinha chegado ainda, não tínhamos onde gastar.

Por lá trabalhei o suficiente para juntar dinheiro para bancar minha próxima investida em busca de dias melhores.

Uma possibilidade inesperada

Sabendo de minhas tentativas frustradas, meu tio Zeli sensibilizado, colocou-se à disposição para que se um dia eu quisesse tentar a sorte em Brasília ele estaria por lá.

Não pensei duas vezes, novamente na rodoviária em Juiz de Fora embarquei, mas desta vez para a Capital Federal.

Foram quinze horas de ansiedade na viagem e finalmente a chegada à Rodoferroviária.

Até o nome é diferente, nunca tinha ouvido falar em Rodoferroviária, mas é porque ali transitavam trens e ônibus interestaduais.

Era um local de muito cerrado ao redor e pouco habitado, exceto o setor militar que era ali na vizinhança.

Confesso que esperava uma recepção com muito mais glamour por parte da cidade, pelo que eu tinha ouvido falar. Onde estavam aqueles prédios de arquitetura moderna e ousada de Oscar Niemeyer, aqueles letreiros maravilhosos dos cartões postais?

Liguei para meu tio que muito surpreso com minha determinação foi imediatamente me buscar. Fomos para a casa da tia Elisa que morava no Lago Norte, próximo ao Plano Piloto. Para que eu saciasse minha curiosidade e acalmasse minha ansiedade de ver o centro da cidade.

À noite, a cidade já me dava as boas-vindas com algumas estrelas aparecendo naquele céu limpo como é o de Brasília.

Passando pela Esplanada dos Ministérios vendo a Rodoviária e o Conjunto Nacional, com centenas de placas e letreiros em neon, pude entender a música do Legião Urbana, Faroeste Caboclo, que sou fã.

Realmente eles não exageraram nem um pouco, qualquer um fica bestificado com tantas luzes e nem precisa ser natal.

Uma data para ser lembrada

Cheguei em Brasília no dia dois de maio de mil novecentos e oitenta e dois.

Não sou de guardar datas, mas nunca me esqueci deste dia, pois estava muito ansioso para saber o que aquela cidade tão linda e tão diferente tinha para me oferecer de bom.

Fiquei na casa de minha tia por dezessete dias. Apesar de estar em fase de acabamento, era uma bela casa, além de ser enorme, havia muito a ser feito para terminá-la. Nesse período que fiquei em sua casa, exerci os meus dotes de ajudante de pedreiro para compensar a minha estada por ali.

Minha tia Elisa e tio Dilson trabalhavam o dia todo e às vezes chegavam tarde da noite. Minha tia algumas vezes viajava a serviço e o Beto, filho mais velho, estava no exército. Ele se orgulhava de estar servindo no Batalhão da Guarda Presidencial (BGP), achei até que ele fosse seguir carreira. Helinho, o caçula tomava o estudo como prioridade absoluta, programa nenhum o desviava dos cadernos e livros, apesar de muito jovem, mas a determinação dele já apontava para um futuro de grandes conquistas, entre um tema e outro, batíamos longos papos.

A vovó Sanita era um doce, fora do carteado é claro, na dourada então, a casa vinha a baixo. Vovô Avelino era um caso a parte; sabe aquela pessoa que não fazia média com ninguém, falava o necessário e não se abalava aparentemente com nada. Tinha um carisma que era só dele.

A tarde caía e o vovô Avelino tomava uma

“lambada” que era como ele chamava a dose de wisky. Colocava a varinha de pescar embaixo do braço e se mandava para a beira do lago, perto da casa da tia.

Eu adorava acompanhá-lo, embora ele não gostasse de conversa neste momento, pois dizia que espantava os peixes, então eu o observava horas ali com aquela paciência esperando a boa vontade dos peixes.

Entre uma iscada e outra sussurrava um comentário, que era o único. No final da pescaria voltávamos para casa, às vezes com umas tilápias ou carás e muitas outras vezes sem nenhum.

É claro que era um passatempo para ele pois, eu sozinho jamais me daria a esse trabalho todo.

A tia Landinha e tio Jorge moravam em Recife nesta época, eu só sabia as notícias de ouvir falar.

A tia Geni tinha uma casa noturna chamada Amoremio Bar, onde eu adorava ir.

Cada dia um evento diferente, mas o que mais me agradava era a noite de forró e as noites em que se apresentavam as mulatas do Sambak Rio, um show belíssimo! Me fazia esquecer até quem eu havia deixado para trás em Bicas.

Embora fosse tudo tão bacana, não era para isso que eu tinha vindo de tão longe, eu queria mesmo começar logo a trabalhar.

De tanto pedir ao tio Zeli, aquele que se colocou à disposição caso eu precisasse, finalmente cedeu aos meus apelos e dia dezenove daquele mês, dezessete dias após a minha chegada à Brasília eu assumia o meu primeiro emprego na Capital Federal.

Finalmente um desfecho diferente

No início eu era apenas o sobrinho do chefe, com certeza estava ali para roubar a vaga de alguém ou quem sabe levar tudo o que acontecesse de errado para o tio.

Tive que aprender a conviver com olhares atravessados e repulsa gratuita de alguns, afinal, eu só estava chegando e tinha que aproveitar a oportunidade.

 Ronda de vigilância era minha função, uma espécie de encarregado dos vigilantes que trabalhavam no prédio da Telebrasília, onde meu tio era chefe da segurança e homem de confiança do presidente.

Na época as empresas estatais e autarquias eram presididas por coroneis, assim como os demais cargos de direção.

Por ali trabalhei por três anos e oito meses, no período noturno, na escala de doze por trinta e seis, ou seja, trabalhava uma noite e folgava a outra, me sobrando tempo para fazer muitas coisas que sempre quis como terminar o nível médio.

Morando de favor na casa de meu tio, não tinha muitas despesas e ainda nos divertíamos muito. Eu, tia Bete e tio Zeli com os almoços e outros desastres domésticos que prefiro não comentar…

Ampliando os meus horizontes

Logo no primeiro ano, tirei minha carteira de habilitação, comecei um curso supletivo, entrei em uma academia de capoeira que era um antigo sonho, minha vida estava cheia de coisas boas e isso fazia com que eu mantivesse a minha autoestima nas alturas, já que não contava com nenhum de meus irmãos por ali.

Uma fase muito boa na minha vida, principalmente espiritual, pois fazia parte da mocidade no Centro Espírita André Luiz e juntos promovíamos festas, apresentações teatrais no lar da Mãe Preta, uma creche que abrigava centenas de crianças. O nosso grupo ia levar um pouco de alegria, esporte e ensinamento cristão àquelas crianças.

Éramos um quarteto inseparável, eu, Vandinha, Anacy e Marcos, pessoas criativas e de um coração enorme, sempre dispostos a engajar numa luta a favor dos menos favorecidos.

Nessa época, eu não morava mais com meus tios, já haviam se passado dez meses e estava mais do que na hora de me arranjar sozinho. Embora contasse com a paciência e cumplicidade deles, era mais prudente não abusar.

Nossa amizade, respeito e cumplicidade permaneciam intactos, mas achei que era chegada a hora de buscar a minha independência.

Sempre me relacionando bem e convivendo com os mais diferentes tipos de pessoas, aprendi e conquistei muitas amizades. Em especial na Telebrasília, onde era um grande número de pessoas.

Naquela época, era muito comum as pessoas fazerem uma jornada diária de seis horas e terem dois empregos, como era o caso das telefonistas, que trabalhavam à noite na Telebrasília e durante o dia no Hotel Saint Paul bem próximo dali.

Minhas atividades consistiam basicamente em substituir colegas para alguma necessidade, caso fosse preciso abandonar o posto de serviço e também mantêlos acordados, conversando ora com um, ora com outro.

Eu sentia que poderia ir muito mais além, mas três anos se passaram e nada de novo aconteceu.

Então a convite da Elisa, uma colega que trabalhava na Telebrasília e no hotel, levei um currículo no hotel e dias depois fui chamado para uma entrevista.

Nesta altura dos acontecimentos, eu já estava morando sozinho, com minha primeira moto e pensando em trocar pelo meu primeiro carro.

O mais prazeroso foi no oitavo mês após minha saída de casa, em poder voltar a passeio e com dinheiro no bolso, levando ainda uns badulaques comprados na Torre de TV que possui uma tradicional feira hippe em Brasília para fazer um agrado aos meus irmãos.

É uma lembrança muito boa que tenho guardada.

Minha satisfação com a nova vida, não era novidade para minha família porque frequentemente eu escrevia contando tudo o que se passava.

Um retorno, várias vitórias

Finalmente um retorno com sabor de vitória, depois de tantas frustrações.

Tudo parecia perfeito até meu pai que eu pensava nunca mais ver por causa do alcoolismo, estava conseguindo vencer a batalha contra a doença, além de ter arrumado uma paquera que depois se tornou sua companheira por longos anos.

Cada um com a sua missão… Minha mãe sempre muito resignada, tratou o alcoolismo de meu pai como doença. Nos ensinando a conviver com respeito e carinho com aquela terrível situação, estava ali para ver nossa vitória. Sim, porque o alcoolismo adoece toda a família e a luta é de todos, assim como a vitória. O que não parecia ter solução ou cura estava tomando outro caminho.

Meu pai era um assíduo frequentador do Alcoólicos Anônimos (AA), se tornou presidente da instituição e recobrou sua autoestima e respeito social. Voltou a ser um pai de família e até candidato a vereador. Foi uma retomada e tanto!

Essas minhas idas e vindas à Bicas se tornaram constantes. Tinha muitas razões para voltar e não media esforços para me dar esta satisfação.

A minha escala na Telebrasília possibilitava esta condição de trocar dois ou três plantões para que eu pudesse tirar uma semana de folga e depois compensar trabalhando na outra.

Mas isso não era tudo, eu queria alçar voos mais altos.

Mais um importante desafio

Em busca desse voo mais alto, procurei o hotel para pleitear um emprego, algo que ampliasse os meus horizontes.

Fui chamado pelo departamento pessoal do hotel para um teste na vaga de caixa no restaurante. Dois dias depois da convocação, lá estava eu de gravatinha marrom, camisa bege, calça marrom e sapato social, esse era o uniforme dos caixas.

Conciliei os dois empregos por um mês, com medo de não me adaptar no hotel e acabar perdendo algum, mas foi mais do que suficiente para saber que eu tinha chegado para ficar.

Sentia-me muito seguro e com possibilidade de buscar novos cargos.

Logo surgiu uma vaga como auxiliar de departamento pessoal e ali comecei a me encontrar na área administrativa, um burocrata. Eu que só havia trabalhado em empregos mais operacionais e mal sabia o significado da palavra burocrata, me sentia no céu em meio àquela papelada do escritório.

Pude conviver com uma grande pessoa, Enéas, um mineiro da cidade de Laranjal, ser humano fantástico com grande conhecimento em recursos humanos e uma paciência incrível para ensinar.

 Iniciei próspera carreira, passando por subchefe de pessoal, encarregado de reservas, secretário geral e chefe de pessoal.

No hotel integrei-me pela primeira vez a um time de futebol em Brasília, promovíamos encontro entre amigos, noitadas e churrascos, formamos  um ambiente agradável de trabalhar e de conviver.

Tínhamos uma vida social que dava prazer ao nosso dia a dia.

Um reencontro espiritual

Aqui me permito fazer um adendo para relatar a maior e inesperada mudança em minha vida, que foi conhecer a Iara, aquela que mais tarde seria a minha companheira de lutas e mãe de meus filhos.

Uma gaúcha nascida em Catuípe, no Rio Grande do Sul, zona das missões, no interior gaúcho. Recémformada em turismo pela PUC em Porto Alegre, e que chegara em Brasília em busca de uma oportunidade de trabalho na área.

Ali estávamos nós, em busca de um lugar ao sol, vindos de lugares tão distantes e culturas tão diferentes.

Começamos com uma convivência profissional muito saudável, nos admirando e aplaudindo o sucesso profissional um do outro.

Ela que morava com a irmã, o cunhado e mais três sobrinhas, já me servia de referência familiar. Almoçamos muitas vezes juntos aos domingos e fazíamos muitos churrascos por lá.

Nessa época eu já contava com a companhia de meu irmão Cláudio, o Cacau, que a meu convite foi tentar a vida em Brasília. Apesar de mais novo ora era filho, ora conselheiro e meu melhor amigo.

Era certo que ele aprontava comigo de vez em quando, mas após eu falar bastante, acabava relevando; Nada muito digno de sérias observações.

Por eu trabalhar à noite, tirava o dia para dormir, não tinha sábado, nem domingo, nem feriado. Quando a escala caía no domingo, tinha que estar lá. Era neste momento que Cacau aproveitava as minhas horas de descanso para sair às escondidas com minha moto para aventurar-se pelas largas ruas de Brasília em meio a um trânsito que mal conhecia e o pior, sem habilitação. Levou pouco tempo e ele já providenciou a sua carteira de habilitação.

Eu o chamava de irresponsável, brigava, mas logo estávamos programando algo para fazermos juntos e a vida estava muito boa para todos.

O tempo passou, eu e a Iara fomos nos envolvendo entre almoços e festas e a partir daí nascia uma relação de amor para a vida toda.

Como Catuípe ficava muito distante de Brasília tive que pedir a mão da Iara para seus pais por telefone. Fui conhecer toda a família quando já estávamos noivos.

Além da Taiza e do Reinaldo havia a Beatriz, a irmã mais velha com três crianças adoráveis, o Rafa, o Guigo e a Tali, inteligentes e criativas demais. Não precisava ter olho clínico para prever um futuro promissor para aquelas crianças.

Um ano e oito meses depois já estávamos casados.

No dia vinte e três de maio de mil novecentos e oitenta e sete às vinte e uma horas na linda igreja de Nossa Senhora de Fátima em Brasília, em uma cerimônia emocionante. Formalizamos a nossa união na presença de meu pai e D. Erôndina, sua companheira, minha irmã Mônica e Jairo seu marido, Mário e esposa Auxiliadora que tiveram que regressar a Juiz de Fora por ocasião do falecimento de sua mãe um dia antes de meu casamento.

Estava quase toda a família da Iara que apesar de morar no Rio Grande do Sul, também não mediu esforços para estar presente em nosso casamento, além é claro, de meu inseparável irmão Cacau e alguns amigos.

Uma cerimônia acima das minhas expectativas

Foi uma cerimônia linda, em uma igreja maravilhosa, com direito a decoração, tapete vermelho e ate carro oficial.

Como trabalhávamos num hotel, o gerente operacional, Sr. José Francisco muito amigo, nos deu de presente o translado de ida e volta para a igreja com direito a motorista e tudo.

Nossa festa foi no salão de festa do prédio onde morava a irmã da Iara. Contamos com a colaboração dos garçons cinco estrelas do hotel, que fizeram questão de servir em nosso coquetel, dando um tom a mais de elegância em nossa festa.

Nunca tinha sido tão feliz! Percebi que a partir daquele momento a vida começava a me compensar por toda busca por dias melhores e por ter estado longe da família.

Uma história a dois

Enfim casado e de vida nova, pude sentir que de fato eu começava a escrever a minha história em Brasília. Uma história que eu teria o prazer em contar futuramente aos meus amigos, filhos e irmãos, da mesma forma que eu contei a minha infância e adolescência em Bicas com algumas dificuldades, mas que apesar de tudo dávamos boas risadas.

Catuípe passou a ser roteiro obrigatório em nossas férias, pois a família da Iara tinha uma área espetacular de lazer, uma reserva sem igual, chamada Parque Águas Claras. Tinha área de camping, um imenso açude onde nos divertíamos com uma pequena lancha, além do caiaque, pescaria e o que não podia faltar, muito churrasco com a família e amigos da Iara que se tornaram meus também.

Dividíamos nossas férias entre Catuípe e Camboriú, na casa dos tios da Iara que moravam próximo à praia, embora eu ainda preferisse a simplicidade e a natureza de Catuípe.

Nos momentos em que passamos férias em Bicas, eventualmente dávamos uma esticadinha às praias capixabas.

Encomenda

Eu e Iara tínhamos um desejo enorme de ter filhos, e logo no primeiro ano de casados programamos a primeira gravidez.

Infelizmente para a nossa decepção, no primeiro mês de gravidez, um aborto natural protelou nosso sonho.

Não demorou muito e após um breve tratamento, providenciamos nova gravidez.

Uma dádiva, um compromisso

No dia onze de maio de mil novecentos e oitenta e oito, numa temperatura de três graus… Isso mesmo! Numa manhã gelada, nascia Camila, uma linda menina, de olhos bem pretos e espertos.

Na época, Iara tinha um desejo de ganhar seu primeiro filho com uma amiga de infância lá em Catuípe, sua terra natal.

Com uma autorização médica consegui com que ela viajasse de avião aos oito meses, e assim voamos para realizar o seu desejo.

Eu prestava serviços para a Transbrasil na época pela Cibrás, por isso não era difícil um bom desconto nas passagens aéreas.

No hospital típico de interior, com poucos recursos, Dra. Helena a amiga de infância de Iara realizou a cesariana que correu sem nenhum problema.

Com um mês, elas retornaram à Brasília, onde eu já às aguardava com muita ansiedade, afinal, minhas férias já tinham termiando e eu esperava impaciente para curtir a minha família.

Camila veio ao mundo com espírito aventureiro, nasceu a quase dois mil quilômetros de casa, viajou de avião com trinta dias e aos seis meses viajamos mil quilômetros de ônibus para conhecer o avô paterno e os tios.

Parecia mesmo que ela tinha pressa, apesar de pouca idade ela já sentava sozinha com uma firmeza fora do padrão de outras crianças. Muito risonha, conquistava todos os amigos e as crianças que frequentavam nossa casa.

Até os seis meses não havia tido um resfriado sequer, até as famosas cólicas da amamentação, quase não existiam.

Na época morávamos com a irmã da Iara, seu marido e as três filhas, no Lago Norte, um bairro nobre de Brasília, em uma casa muito grande, com piscina e uma área verde maravilhosa. Nossa casa vivia sempre cheia de amigos com suas esposas e filhos que levavam alegria aos nossos fins de semana.

 Distante de minha família, aquele povo todo me servia de consolo e fazíamos animados churrascos por ali.

Uma visita inesperada, a dor!

Em uma dessas visitas de amigos, veio um amigo com seu filho de três anos que se recuperava de uma varicela, a popular catapora, uma doença infantil que eu tive na infância e minha esposa também, muito comum e de fácil tratamento.

Quando ficamos sabendo, ele já tinha tido contato com a Camila que contraiu a doença. Até aí sem problema, provavelmente a catapora viria mais tarde mesmo e não adiantaria se queixar, era só cuidar da febre e aguardar o ciclo da doença como a própria pediatra recomendou.

Dias depois, pela primeira vez Camila apresentou um quadro de gripe muito forte, muita febre e dificuldade para se alimentar. Esse quadro começou a nos preocupar, pois não sabíamos se a febre era relacionada à catapora ou da gripe com uma possível inflamação de garganta ou ouvido… reações que a gripe traz principalmente em criança.

Acompanhamos as recomendações médicas, mas à noite ela começou a apresentar um gemido como se estivesse sentindo alguma dor e a febre não cedia.

Voltamos então ao hospital e ao ser examinada, a pediatra achou mais prudente interná-la, pois apesar da varicela ser uma doença comum e de fácil tratamento, ela debilita muito o organismo. Foi diagnosticado o quadro de pneumonia, necessitando de um acompanhamento mais rigoroso em virtude da febre que voltava a cada duas ou três horas.

O seu quadro clínico foi se agravando com o passar dos dias, até que tiveram que realizar uma punção no pulmão, pois a medicação não estava mais fazendo tanto efeito.

Estávamos muito apreensivos e naquele dia, tanto que eu e a Iara não fomos trabalhar. Naquele dia a pediatra e um pneumologista recomendaram que a Camila fosse transferida para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Imediatamente concordamos e nos colocamos à disposição do hospital, só que não era tão simples como pensávamos…

Uma busca desesperada

O hospital apesar de particular não dispunha de UTI infantil e o pior, a dificuldade maior era que ela necessitava o isolamento devido à catapora. Começamos então uma luta contra o tempo.

Esgotados os argumentos dos responsáveis pelo hospital, saímos a procura de alguém que pudesse nos ajudar naquela busca desesperada. Não sabíamos mais a quem recorrer, até que por influência da gerente do hotel onde a Iara trabalhava, uma mulher muito querida e influente, irmã de um deputado na época, conseguimos finalmente uma UTI num hospital de uma cidade satélite.

Respiramos aliviados após a transferência, mas as notícias após exames naquele mesmo dia, eram desanimadoras. Camila estava em choque séptico. Nunca tínhamos ouvido falar, mas o médico foi muito direto na explicação… Tratava-se de uma infecção generalizada e muito grave, teríamos que contar muito com a ajuda de Deus, pois a medicina pouco poderia fazer a não ser mantê-la em coma induzido para aliviar as dores e esperar a reação do organismo ao tratamento.

Nossa dor era tanta que uma noite ao retornarmos do hospital, vínham em nosso carro a Iara, a Taiza, irmã dela e minha sogra, a D.Nilza e no outro estava eu com o carro da empresa em que trabalhava, quando de repente vi sair uma intensa fumaça do motor do carro delas. Sinalizei com farol e buzina até que elas parassem… O carro estava em chamas. Tentamos por alguns instantes controlar o fogo, mas já havia tomado proporções além da capacidade de combate dos extintores dos dois carros. As pessoas paravam para nos ajudar a salvar o que restou, mas nossa preocupação tinha ficado no hospital. Sentamos na calçada mesmo, como se aquele sinistro não fosse conosco.

Liguei para a empresa onde eu trabalhava e pedi a um amigo que tomasse as providências cabíveis por mim.

O episódio do incêndio ficou esquecido, diante de toda a preocupação que nos consumia a cada segundo com a Camilinha naquela UTI.

O box da Camila no hospital era o primeiro na UTI, bem próximo a uma antessala para que as visitas ficassem aguardando a autorização dos médicos para entrar.

 Do corredor ouvíamos os aparelhos que monitoravam o coração e a respiração. Aquilo era uma tortura e ao mesmo tempo uma esperança, afinal, aquele barulho significava que ela continuava lutando pela vida.

Foram dias e noites em claro, até que um dia ligaram para minha casa chamando a Iara fora do horário habitual de visitas.

Uma batalha perdida

Chegando ao hospital Iara subiu rapidamente à UTI e do corredor ela pode pressentir o pior, pois não ouviu o barulho dos aparelhos.

Não precisou palavras, a expressão de derrota no rosto das enfermeiras que acompanharam nossa luta e com todo carinho cuidaram da Camila durante aqueles dias foi o suficiente.

Terminava ali uma dolorosa jornada para Camila e para nós. Mas começava outra não menos dolorosa.

Eu estava no trabalho quando fui avisado e fui direto ao hospital para tomar as providências.

Meu tio Zeli me acompanhava, mas fiz questão de cuidar de tudo pessoalmente.

No dia seguinte, o sepultamento. Não tínhamos mais lágrimas para chorar, a sensação de impotência, de derrota, de vazio, nos consumia naquele silêncio absoluto.

 Não éramos nós, aquilo ali não parecia real, não podia ser. Era como se tudo o que tínhamos construído durante a vida inteira tivesse acabado ali, era o fim de tudo, o nosso fim…

De volta para casa, exaustos, sem conseguir dormir, sem querer falar com ninguém, tentávamos entender o porque de toda aquela provação.

Tínhamos a família da Iara conosco, mas ainda que eu tivesse a minha, de nada adiantaria, pois a dor era terrível demais, só o tempo poderia nos direcionar a uma retomada para a vida.

De volta à vida

Morávamos eu e Iara, a Taíza irmã dela com o marido Arno e as três crianças, Biti, Ana e Bruna na mesma casa.

Éramos literalmente uma só família, a dor de um era a dor de todos e esses ainda hoje estão de alguma forma incondicionalmente integrados em nosso dia a dia.

Conversávamos bastante, nos consolando mutuamente e aos poucos o coração se acalmando, a razão veio dando forma à retomada para a vida.

Sob a luz do espiritismo, nossa orientação religiosa, começamos a aceitar nossa missão e voltamos a trabalhar e seguir a nossa caminhada.

Sabíamos que o mundo lá fora não havia parado e que o sol nascia e se punha todos os dias indiferente à nossa dor, porque assim são as leis de Deus, iguais para todos.

Nosso caso era só mais um dos milhares que acontecem diariamente, e nós assim como o sol, acordamos e dormimos indiferentes à dor alheia.

A duras provas percebemos que a maioria das pessoas passam uma vida inteira, e às vezes não conseguem perceber o que se passa a sua volta. Percebemos da pior maneira possível, sentindo na própria pele toda a dor.

Agora, neste momento talvez esteja acontecendo algo com seu vizinho. Você certamente estará muito ocupado com seus problemas, sejam eles maiores ou menores, e com certeza mais importantes para tentar ajudá-lo ou apenas demonstrar solidariedade para que ele não se sinta sozinho.

Dias, meses se passaram e o tempo não curou esse tipo de ferida apenas amenizou a dor.

A princípio não queríamos mais ter filhos, tínhamos muito vivo em nós todo aquele drama da perda de nossa Camilinha, mas não sabíamos dos desígnos de Deus e dos compromissos assumidos.

Então resolvemos nos dar uma nova chance de voltármos a sermos felizes.

Uma nova chance

Planejamos uma nova gravidez.

Tudo corria bem até o sexto mês, quando a Iara começou a sentir dores e o médico que acompanhava o pré-natal, recomendou que ela se afastasse do trabalho até o nascimento.

No dia dezenove de feveireiro de mil nocentos e noventa nascia uma linda menina, gordinha, bem branquinha, de cabelos dourados de tão loiro.

Ela recebeu o nome de Mariana. Uma criança muito tranquila que suportava bem o clima seco de Brasília. Muito meiguinha, carinhosa e não estranhava ninguém.

O tempo foi passando e percebíamos o olhar atento dela a tudo. De dentro do cercadinho de tela forrado com espumas, ela observava todo o movimento da casa e adorava a companhia de uma vizinha da mesma idade, que entre bichinhos de borracha dividiam o espaço ali dentro daquele cercadinho.

Percebíamos que ela se sentia sozinha ou que talvez ela se sentisse melhor tendo uma irmãzinha ou irmãozinho.

Nesta época, Iara já havia deixado o emprego para se dedicar mais à nossa casa e à nossa filha.

O meu emprego na Cibrás ia muito bem, meu relacionamento com meu chefe imediato, Moacir ia além das conveniências profissionais, pois fazíamos MotoCross juntos, jogávamos futebol no mesmo time e ele se tornara um grande amigo. Minha família sempre participava das festividades na empresa e as expectativas profissionais eram as melhores.

Eventualmente Iara fazia viagens para Brusque em Santa Catarina em busca de roupas de malha para revender em Brasília, aproveitando para rever seus parentes, amigos e claro, dar um reforço ao nosso orçamento doméstico.

Achamos que era hora de darmos uma irmãzinha à Mariana.

Coisas que só a espiritualidade explica

No primeiro exame de ultrassom, eu estava trabalhando e não pude acompanha-la, então sua irmã Taiza fez isso por mim.

Cheguei em casa após o fim do expediente e todos me olhavam com uma expressão muito diferente, com cara de riso. Logo eu desconfiei que havia algo estranho por traz daquelas expressões.

Foi então que a Iara me deu o resultado do exame para ler e lá estava a informação, gravidez gemelar. A sensação de susto, euforia, preocupação, afinal, duas crianças de uma só vez. Como seria cuidar de duas ao mesmo tempo? Na verdade três, pois a Mariana ainda era muito novinha.

A gravidez foi cercada de cuidados especiais sob o olhar atento do Dr. Sazake, um obstetra muito competente e conceituado na época, que atendia no hospital Golden Garden, um dos hospitais mais bem conceituados da cidade, onde mantínhamos convênio por conta de tudo isso, apesar dos riscos, nos sentíamos tranquilos.

No dia vinte e cinco de março de mil novecentos e noventa e dois nasciam Gabriel e Marina.

Mais uma cesariana e desta vez acompanhada de uma laqueadura de trompas.

Marina veio primeiro, Gabriel  um minuto depois, tendo que ficar um tempinho na encubadora, mas correu tudo muito bem e logo fomos para casa.

Logo no primeiro mês de vida percebemos que a resistência dos gêmeos não era a mesma que a Mariana.

Sentiam muita cólica, acordavam muito à noite e a baixa umidade do ar de Brasília já mostrava certa interferência na saúde dos dois.

Muitas foram as visitas à pediatra por conta do clima e duas pneumonias exigiram maior cuidado até o primeiro aninho de vida.

Aos oito meses, um susto enorme.

Na contramão da razão

Morávamos na Cidade Ocidental a quarenta e sete quilômetros de Brasília e fomos à Catedral para batizar Gabriel e Marina. Após a cerimônia e almoço na casa de minha cunhada, um cidadão alcoolizado dirigindo um Maverick branco veio na contramão e bateu em nosso carro.

Estávamos eu, Iara, Gabriel, Marina, Mariana e Rafael, meu sobrinho e padrinho da Marina.

Eu tinha uma Belina na época, um carro bem espaçoso que acomodava bem a todos. O choque foi tão forte que a perna da Iara foi esmagada contra o painel e a porta do carona.

Fomos todos para o hospital, ficando eu e Gabriel por 12 horas em observação. A Iara ficou internada aguardando a cirurgia emergencial, pois havia rompido tendão, menisco. O restante foi liberado.

Nesta época eu contava com a presença de meu irmão Claudio, padrinho do Gabriel e meu anjo da guarda, pois durante dois meses a Iara precisou ir ao hospital várias vezes, até mais de uma vez na semana para fazer curativos e cirurgias de reconstituição do joelho. E era ele quem a acompanhava muitas vezes enquanto eu estava trabalhando.

Por outro lado, mais uma vez eu podia contar com meu cunhado/ irmão Arno e Taiza, também anjos em nossas vidas, pois não bastasse o que eles já haviam feito por nós ao longo da vida, acolheram toda minha família em sua casa no Guará II, cidade satélite de Brasília, até que a Iara estivesse completamente reestabelecida.

Ficaram algumas cicatrizes, físicas e psicológicas.

Vencida esta etapa, outra pior iniciou

Passado o susto, levávamos uma vida confortável e prazerosa numa cidade linda como Brasília e generosa em oportunidades de trabalho.

Tínhamos nossa casa própria, só eu trabalhava fora, porque era suficiente para atender nossas necessidades financeiras.

A vida infelizmente não é feita só disso e a minha parecia ser feita de fortes emoções, que eu não percebia na vida dos outros.

Gabriel estava com um ano e oito meses, quando apresentou um quadro de febre alta e diarreia.

Fomos ao hospital numa cidade satélite onde a pediatra recomendou internação, pois ele estava muito desidratado. A Iara passou a noite com ele, mas a febre não sedia e só piorava.

Decidimos então procurar um hospital onde tivesse mais recursos.

Novamente contando com a generosidade da mesma pessoa que conseguiu UTI para Camila, conseguimos também para o Gabriel. Desta vez no Hospital de Base que já era muito conhecido por conta da internação e morte do então Presidente da República Tancredo Neves.

Nas mãos de Deus

Ali chegando, fomos muito bem recebidos pela equipe médica e enfermeiros que nos colocou a par da rotina. Foi feito uma bateria de exames e assim que tivessem os resultados, seríamos informados.

Fomos para casa apreensivos, mas confiantes em Deus.

Na mesma noite recebi um telefonema do hospital, solicitando minha presença e imediatamente peguei o carro para verificar do que se tratava.

Para meu desespero, o problema era mais grave do que o que os médicos do outro hospital haviam passado. Neste outro hospital que recebeu o Gabriel na UTI, eles informaram que ele estava em choque séptico, o mesmo quadro infeccioso que levara Camila a óbito.

Após receber a notícia, percebi que o pesadelo iria recomeçar.

Voltei para casa e não foi nada fácil dar a notícia a todos.

A Iara foi imediatamente para o hospital e ficou na recepção de plantão até que saísse uma notícia oficial, através do boletim que saiu somente pela manhã.

O problema estava diagnosticado, ele estava em coma induzido e o quadro era estável, aguardando ação dos medicamentos.

 No terceiro dia já mostrava sinais de boa recuperação, foi tirado do respirador e já começava a responder a alguns estímulos.

No sétimo dia de UTI, apesar de muito inchado em função do tratamento a base de corticoides, e dos rins que funcionavam muito precariamente, ele já reconhecia algumas pessoas da família e um brinquedinho colorido que ele adorava e que eu havia levado para estimular sua recuperação.

Ele foi transferido para uma semi-uti, onde havia uma espécie de incubadora e ele recebia uma oxigenação melhor evitando uma recaída.

Quarenta e dois dias já haviam se passado até sua alta e pronta recuperação.

Só nós não havíamos nos recuperados ainda… A partir desse dia, ficou a insegurança de como seria, que cuidados deveríamos tomar além do que já tomávamos, afinal, éramos atentos e cuidadosos, mas ficava a sensação de impotência diante da doença e muitas interrogações insistiam em nos acompanhar.

Segundo a opinião da pneumologista, nós deveríamos procurar uma região onde a umidade do ar fosse melhor que a de Brasília.

 Ao retornarmos para casa, tomamos a decisão de ir embora de Brasília, pois quase perdemos outro filho com o mesmo problema.

Era nítida a dificuldade de adaptação das crianças naquele clima seco, onde a incidência de infecções e doenças respiratórias era muito grande.

Tão logo a pediatra encerrou o período de observação e nos deu a certeza de estabilidade na saúde do

Gabriel, então começamos a planejar a nossa mudança. Mas para onde ir?

Para Bicas em Minas Gerais, interior mineiro onde meu pai tinha uma casa e ficaríamos abrigados para tentar abrir um comércio ou procurármos um emprego qualquer? Ou para Brusque em Santa Catarina, onde a Iara já conhecia através de suas viagens para comprar roupas e revender, além de contar com dois primos do ramo de malharia, com lojas e que poderiam quem sabe nos ajudar?

Recomeçando… Mudança de hábitos

A segunda opção nos pareceu a melhor, então vendemos nossa casa em Brasília, o carro e fomos para Brusque.

Era mais racional montármos um comércio do que comprármos uma casa naquele momento, a casa seria comprada mais tarde.

Montamos uma loja de roupas, e como a maioria dos lojistas por ali, pagávamos facção e vendíamos roupas prontas, adulto, infantil, enfim, de tudo um pouco. Optamos por trabalhar com material de qualidade e confeccionar peças de alto padrão.

Foram dois anos de bons negócios, mas no terceiro, com as mudanças na economia do país e a invasão de produtos chineses e coreanos, as vendas baixaram.

Tentamos durante quatro anos e oito meses reverter a situação. Foram doze anos de muita luta em Brasília, nós havíamos investido muito naquele projeto de vida.

Comecei a trabalhar para terceiros em uma loja de tecidos enquanto a Iara e a D. Nilza, minha sogra, administravam a loja.

 As vendas não melhoravam, tentei até algumas viagens para Minas, vendendo produtos da nossa confecção e também das lojas vizinhas. Ao viajar para lá, podia contar com o apoio da minha família dentro das possibilidades de cada um. Minha irmã Mônica me dava toda a estrutura de logística em Bicas e região, deixando o carro à minha disposição e minha cunhada Dodora, abria as portas da escola onde lecionava para que eu pudesse vender o meu produto.

Todos os esforços não foram suficientes para salvar nossa loja, infelizmente a falência era inevitável, apenas uma questão de tempo.

Resolvemos fechar as portas e pagar muitos credores com mercadorias, tamanho era a crise.

Não dava mais para sobrevivermos ali com o meu salário, a situação se tornava mais difícil a cada dia.

Era constrangedor para minha esposa e minha sogra passar um dia inteiro tentando vender nossos produtos e chegar no final do dia sem acontecer nada de novo.

As lojas de importados onde a qualidade nunca superava o menor preço, conseguiam encher os ônibus de excursões que vinham de todas as partes.

Vendemos o que deu para fazer um dinheiro qualquer, pois desta vez não tínhamos casa e nosso carro havia sido vendido… Se é que podia chamar aquilo de carro. O assoalho era feito de tábuas para proteger um pouco da poeira e também para não cair as peças de roupa pela estrada, tamanho eram os buracos no assoalho; parecia mais o carro dos Flintistones… um paralama era amassado e já estava enferrujado de tanto aguardar reparo, do outro lado faltava um farol e os pneus eram os que tínhamos para rodar…

Certa vez fui parado em uma blitz e o policial me abordou pedindo documento do veículo e minha habilitação. Ele ficou olhando dentro do carro e se deparou com três mil camisetas que eu trazia da costureira. O banco do carona não tinha, eu havia retirado para caber todas as camisetas. O policial disse: – Senhor, este carro não tem condições de estar nas ruas, o veículo será detido.

Pedi pelo amor de Deus para ele me liberar, mas o máximo que ele fez foi passar o caso para um Tenente. Com os meus documentos na mão ele se aproximou e de imediato eu fui dizendo: – Senhor Tenente, é perceptível o estado deplorável do meu carro, mas eu apelo pela sua compreensão. Esse é o meu ganha pão, sou pai de família, estamos atravessando uma crise muito difícil.

Antes que eu entrasse nos detalhes da crise, ele olhou fixamente na minha cara e disse: – Entre neste carro e suma daqui, se eu te encontrar de novo rodando com esse carro, prendo e nunca mais ele sai. Neste estado não quero nunca mais encontrar este carro, fui claro? Eu mais do que ligeiro respondi: – Sim senhor!

Foi minha resposta, já com o carro ligado que graças a Deus pegou de primeira e me mandei!!

A mesma estrada, mas caminhando diferente

E assim fomos para Bicas, sem perspectiva de trabalho, com apenas com algumas caixas que trouxemos no ônibus com roupas de cama, duas malas com roupas pessoais e uma televisão com um DVD. Coube tudo na caminhonete do meu cunhado Jairo, que nos esperava na rodoviária do Rio de Janeiro e trouxe toda a mudança na carroceria, além da Iara, Mariana, Marina e Gabriel.

Desta vez eu não me sentia um derrotado, afinal, só sabia das batalhas que havia enfrentado até ali.

Tinha mais em quem pensar, e recomeçar era preciso!

Morando na casa de meu pai de favor, contando com a solidariedade incondicional dos meus irmãos, consegui fazer um curso de formação para vigilantes em Juiz de Fora, que foi custeado por meu irmão Cacau que ficara em Brasília. Mário, meu irmão, me dava os tickets refeição, o que  foi possível para me tranquilizar e administrar esse começo até que eu me qualificasse para um novo emprego.

A partir daí, as portas do mercado de trabalho começaram a se abrir novamente e consegui na área de segurança, o que facilitou, pois eu já havia atuado nesta área em Brasília como supervisor e conhecia bastante.

Assim que me formei no curso de vigilante, conheci por intermédio de meu cunhado Milton, um supervisor de segurança que me deu a primeira oportunidade para trabalhar no canteiro de obras onde estava sendo construída a montadora da Mercedes Bens. Era a empresa que eu sonhava em trabalhar e já tinha ouvido falar da fábrica até em Santa Catarina. Trabalhei por esta empresa de segurança por três anos e seis meses, até que a fábrica foi inaugurada.

Eu morava ainda na casa de meu pai e em noites alternadas ia para casa, já estava acostumado com a escala, pois há tempos trabalhei assim quando cheguei em Brasília. Quanto à jornada de trabalho com relação ao horário, não havia nada de novo.

O que sobrecarregava eram as passagens. Para economizar eu me virava pedindo carona nos trevos esperando contar com a sorte, às vezes conseguia carona de ida e volta.

Minha meta era fazer parte do quadro funcional da própria Mercedes Benz, alugar uma casinha e assim levar a minha família para morar em Juiz de Fora.

Era preciso que eu fizesse um curso de nivelamento no SENAI para atender requisitos e a partir daí entrar para a lista de candidatos a seleção.

Morando com minha família em Bicas e trabalhando em noites intercaladas, eu precisava ficar em Juiz de Fora todos os dias fazendo o curso com duração de quatro meses.

Nessa época novamente tive um apoio fundamental de meu irmão Mário e minha cunhada é claro, que moravam em Juiz de Fora e que disponibilizaram uma acomodação em sua casa para mim.

Foi uma fase de muita dedicação, mas consegui me qualificar para participar da seleção, era só aguardar a convocação.

Dias tempestuosos

O que já estava difícil ficou pior, num espaço de cinco meses, Iara perdeu um irmão aos quarenta anos de infarto e o pai vítima de um câncer.

As coisas não andavam bem, e ela precisava muito de mim, mas eu só podia ir para casa nos finais de semana.

Estava tomado por uma ansiedade terrível, por conta da expectativa de ser convocado para fazer as provas de seleção para a Mercedes que aliás já demorava demais segundo minha análise.

A minha relação com a Iara estava abalada com tantos acontecimentos, então ela resolveu ir para o Rio Grande do Sul, ficar com a sua mãe, além de ter uma promessa de emprego.

Tomei a decisão de ficar e tentar mais um tempo.

E assim foi feito, Iara e as crianças foram para Catuípe no Rio Grande do Sul e eu fiquei morando em Juiz de Fora, onde aluguei um quarto de pensão.

Uma mercedes em minha vida

Meses depois para a minha felicidade, fui chamado para fazer a tão esperada seleção, onde semanas depois recebi a aprovação e fui contratado.

Senti que seria para sempre. Uma multinacional, com oportunidades diversas de qualificação, uma valorização humana que até então eu não conhecia, fiquei entusiasmadíssimo! Era a certeza de que o sol voltara a brilhar para mim.

Reatando laços

Eu ligava frequentemente para o Sul e as notícias de lá não eram as melhores.

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A promessa de emprego da Iara ficou só na promessa, estávamos com muita saudade um do outro e eu das crianças, mas com a conquista da vaga na Mercedes, estava fora de cogitação eu me mudar para lá.

Prometi a ela que na primeira oportunidade eu os buscaria. Nove meses se passaram até que num feriado de final de ano, finalmente fui buscá-los. Foi um reencontro e um recomeço, pois a distância trouxe muitas respostas e nos fortaleceu.

De volta a Minas Gerais, minha família foi novamente morar na casa de meu pai e eu continuei morando de pensão em Juiz de Fora.

Nossa meta era conseguir um emprego para a Iara em Juiz de Fora e alugarmos uma casa.

Com o passar do tempo, fomos atingindo os nossos objetivos e pouco a pouco conseguimos casa para alugar, colégio para as crianças e emprego para a Iara em uma empresa de Telemarketing.

O maior sonho era comprar nossa casa, estármos amparados em nossa aposentadoria, com o nosso cantinho sem ter a preocupação do aluguel e as mudanças a cada majoração de contrato, mas com o salário que ganhávamos, era ainda um sonho distante.

Levávamos uma vida difícil, porém felizes.

Sempre contando com a generosidade de um ou de outro famíliar.

Estávamos sempre que possível em Bicas visitando os meus familiares e nos finais de semana era raro não recebê-los em nossa casa.

Fazíamos grandes festas com churrascos e cerveja. Além dos adultos, reuníamos a criançada, pois os primos seguem nosso exemplo de convivência e se dão muito bem.

Minhas irmãs ao contrário dos meus irmãos, não aprovavam muito nossos churrascos com tanta cerveja, mas participavam assim mesmo, acho que era porque os cunhados também gostavam…

E assim levávamos nossa vida, com uma bagagem de experiências entre meus oito irmãos.

Tínhamos já nessa época muitas histórias para contar, engraçadas, divertidas e outras tristes e dolorosas, mas havia muito a viver ainda.

Sempre de forma corajosa e resignada aceitamos nossos desafios e enfrentamos a todos com muita garra e determinação.

Durante a vida toda fui posto à provas diante de situações dificílimas, desafios com barreiras aparentemente intransponíveis. Em muitas situações, fui herói de mim mesmo. Afinal de contas, que estrutura eu teria por ter saído de casa tão cedo, distante de minhas raízes e referenciais de vida e possíveis exemplos para enfrentar tamanhos desafios… Se quer tinha notícias da vida de algum conhecido, quem dirá da minha!

Mas um dos maiores desafios ou talvez o maior deles ainda estava por vir…

Percebi então que talvez a vida não estivesse me maltratando, mas me preparando para a batalha final, a maior delas

Batalha final? Talvez!

Depois de ter perdido prematuramente uma filha e quase um filho, ver minha mulher quase mutilada por um acidente automobilístico e ter perdido literalmente tudo o que eu pude em um longo tempo somar em valores materiais e recomeçar. Era um grande desafio… e dessa vez eu era o protagonista.

Assim iniciava, aos quarenta anos, a minha convivência com a Amiotrofia Espinhal (AME), razão inclusive de eu ter decidido escrever a minha história de vida.

Amiotrofia Espinhal trata-se de uma doença, embora eu a chame de deficiência em virtude de se tratar de uma consequência de má formação genética na combinação de gens “Aa +Aa”, onde o “a” é dominante e o “A” recessivo e quando nascem gens “aa” ocasiona essa deficiência.

Não vou entrar no mérito técnico da questão, pois não tenho conhecimento para tanto.

Contarei os primeiros passos com detalhes possíveis e ao alcance de minha memória, mas com o objetivo de documentar a evolução da deficiência desde o início que foi aos quarenta anos até o momento com quarenta e nove, relatando fatos que aconteceram comigo e casos na família que pesquisando, tomei conhecimento, e principalmente o relato da minha convivência com tudo isso.

Muito antes de apresentar qualquer tipo de fadiga muscular, tinha algo que me incomodava e causava em algumas situações, constrangimentos a ponto de eu ter que sair de um determinado ambiente por não ter um banheiro disponível naquele momento.

Hoje associo isso a essa deficiência, que é uma precipitação intestinal, mas que não chega a ser uma incontinência porque ainda consigo perceber a necessidade e segurá-la por alguns minutos, alguns poucos minutos…

 Esse problema se manifestou logo cedo, mas foi a partir dos quarenta que ficou mais evidente, embora neurologistas digam que não há ligação nenhuma entre uma coisa e outra, isso me chamou muito a atenção.

Sempre me policiei muito nos lugares onde eu frequentava, buscando se havia banheiros em condições de uso, caso contrário eu nem ia, assim como em ônibus.

Para ter ideia, quando eu trabalhava em Juiz de Fora e morava em Bicas que era uma distância de trinta e sete quilômetros, algumas vezes eu parava no meio da viagem sem conseguir chegar, devido a minha necessidade de ir ao banheiro.

Era constrangedor demais pedir para o motorista esperar até que eu resolvesse meu problema e retomasse a viagem, então eu descia com uma desculpa qualquer, resolvia o meu problema e depois tentava uma carona ou pagava nova passagem.

Em consequência disso, muitas vezes eu saía de casa duas ou até três horas antes do meu horário de entrar no serviço para que se caso acontecesse uma necessidade de parada emergencial, eu ainda pudesse chegar no horário para trabalhar.

Aos domingos, nossa pelada entre irmãos e amigos era sagrada. Todos contavam com idades aproximadas entre trinta e seis e quarenta e quatro anos mais ou menos. Muita gente ruim de bola e outros nem tanto, ainda assim como haviam aqueles que reclamam de tudo, alguns nem sabiam perder, e aqueles que tentavam sempre montar a panelinha, a pelada saía de qualquer forma, sempre em campos pequenos com sete para cada lado, às vezes nove dependendo do campo.

O tempo de jogo era livre e a regra era a seguinte: a primeira partida era queda de dez e depois com queda de cinco, após esse placar, cerveja rateada e o choro livre.

Algumas vezes a convite de um velho amigo, mestre de capoeira, eu participava de alguns batizados ou rodas livres, além das peladas nos finais de semana.

Com o tempo comecei a perceber que na capoeira a minha explosão para saltos mais elaborados como o chamado salto mortal, já não era o mesmo, assim como nas peladas, percebia muita reclamação de meus companheiros de time com relação ao meu desempenho na partida.

Os que mais reclamavam já falavam que eu estava fazendo corpo mole, com preguiça de correr e eu atribuía àquela postura ao meu estilo clássico de jogar. Sempre com bola no pé e sem muita correria, eu não conseguia convencer muito. Tinha sempre um gordinho achando que eu deveria correr mais, e quando perdia era o que mais ouvia depois na mesa do bar.

Uma indesejável companheira

Aquilo se tornou muito frequente. Na verdade já era um sinal de minha inseparável companheira amiotrofia, ela estava dando sinais que só hoje pude perceber.

O tempo foi passando e com o propósito de pleitear uma melhoria na Mercedes, comecei a fazer um curso no SENAI de Mecatrônica.

Um tempo que me exigiu muita resistência física, pois eu acordava às quatro e meia da manhã para estar na fábrica às cinco e meia, tomar café, pegar no serviço às seis e trabalhar até às dezesseis e às dezessete começar o curso que se estendia até às vinte duas e trinta.

Foram dezoito meses de intenso desgaste. Diminuí minhas idas aos finais de semana à Bicas e o futebol ficava em segundo plano. Nas poucas vezes que eu jogava, já não participava da segunda partida e percebia muito o cansaço nas pernas e um peso para caminhar diferente dos demais.

Essa fadiga já começava a me preocupar, pois até para subir um vão de escadas no SENAI, já estava sendo desgastante.

O início da maratona

Percebi que era hora de procurar uma orientação médica. No d ia segu inte fu i ao am bu latório d a Mercedes onde sempre havia um médico de plantão. Consultei com um clínico geral que me pediu exames de sangue e urina, pois eu me queixava de câimbras e fraqueza muscular.

No resultado não foram constatadas alterações expressivas, mas mesmo assim ele me receitou algumas vitaminas para melhorar minha condição física, tendo em vista as câimbras que provavelmente eram carência de potássio. Tomei por quinze dias e não senti nenhuma diferença, nem com relação às câimbras.

Voltei ao médico e ele me encaminhou para o Dr. Raimundo, que era supervisor do nosso plano de saúde, apesar de ser cardiologista, certamente deveria dar um parecer sobre os meus sintomas, tendo em vista o seu vasto conhecimento na medicina e experiência como médico. Ele me disse que a princípio, deveria ser uma fadiga natural, em virtude do cansaço por eu estar estudando e trabalhando, aliado à preocupações com a família entre outras coisas, mas achou prudente que eu procurasse um especialista na área de ortopedia.

Por recomendação de amigos, fui me consultar com Dr. Ricardo, ortopedista experiente com formação no exterior e muito bem conceituado em Juiz de Fora.

Em uma consulta meticulosa e cheia de perguntas, ele me recomendou alguns exames e dentre eles um que até então nunca tinha ouvido falar, um tal de eletroneuromiografia… eita nomezinho difícil, mas que me familiarizei logo, infelizmente por necessidades que saberão mais a diante.

Quando levei a requisição do exame para Dr. Raimundo autorizar, ele até se espantou, achando extremo demais um pedido de um exame tão raro, caro e dolorido por uma queixa de câimbras e fadiga muscular, mas mesmo assim autorizou.

Fiz o exame no Hospital Monte Sinai, sem dúvida o melhor de Juiz de Fora com um neurofisiologista, o Dr. Marcelo, um dos poucos em Juiz de Fora qualificado para realizar tal exame.

 De posse do resultado, retornei ao consultório do Dr. Ricardo para apresentá-lo o exame e saber o que se passava.

Havia no exame registro de irregularidade, entretanto, não era caso ortopédico e sim neurológico, então ele me encaminhou para um renomado neurologista, Dr. Teles que por sua vez, não encontrou tal anomalia registrada no exame como sendo caso para neurologia. Resolveu então me encaminhar para um especialista de coluna para descartar qualquer possibilidade de ser um problema ortopédico.

Lá ia eu mais uma vez a outro especialista em uma clínica especializada em ortopedia e fisioterapia, aliás, uma das melhores. Quem me atendeu foi o Dr. Jair também com formação no exterior, muitos diplomas na parede e registros em congressos pelo mundo inteiro.

Só a minha fadiga não melhorava e o diagnóstico que era bom, ninguém se atrevia em arriscar.

O médico pediu muitos exames que eu já havia feito, além de uma ressonância magnética que não tinha sido realizada. Pensei… agora sim, com esse exame tão caro e tão sofisticado, que plano nenhum gosta de autorizar, vou ter o que mais quero, um diagnóstico.

Resultado na mão, de volta ao consultório do Dr. Jair e nada de diagnóstico, apenas uma escolióse somada a uma artrose que para minha idade, naquele momento era justificável segundo informação do médico, mesmo porque não provocaria necessariamente aqueles sintomas. Entretanto, ele me recomendou seções de fisioterapia na própria clínica que era conveniada com meu plano de saúde.

Ineficaz, mas agradável

Foram 20 seções sem nenhum resultado aparente, com exceção do prazer da boa companhia das fisioterapeutas que eram atenciosas e muito bonitas.

Posteriormente mais 20 sessões. Fiquei de saco cheio daquelas sessões sem avanço, pois o resultado era contrário só me fadigava mais a musculatura.

Após todos esses procedimentos, voltei a conversar com Dr. Teles e falei da minha indignação por conta de vários exames, especialistas e consultas sem sucesso.

Antes de começar a estudar, eu fazia natação três vezes por semana no clube do SESI. Nadava mil metros a cada dia, já não jogava mais futebol por causa do cansaço nas pernas e a natação me dava mais prazer. Comentei com o médico que me indicou um novo centro de fisioterapia onde eu poderia fazer hidroginástica, hidroterapia e que certamente fariam bem até para o meu psicológico, pois a água é uma terapia. Apesar de tudo o que eu já havia ouvido falar, ele recomendou que eu não nadasse grandes percursos e nem em água fria, porque ela provoca contração muscular e no meu caso não seria recomendável. Então fui fazer hidroginástica.

Do início das buscas por um diagnóstico até aqui, já haviam se passado quase dois anos.

Lá fui eu fazer a tal hidroginástica. O local era muito agradável, com piscina de água morna, parecia mais uma academia de ginástica com muitos instrutores, no caso da hidro era uma mocinha que orientava o grupo. Na minha turma era uma festa, o mais novo era eu e tínhamos três homens e sete mulheres. A espirração de água era para todos os lados, uma fofocaiada de mulheres e ainda tinham momentos de entretenimento como vôlei e futebol aquático. Tornava-se muito divertido, haviam umas coroas de alto astral, um ambiente que sem dúvida fazia bem à cabeça de qualquer pessoa.

Mas o meu problema não era na cabeça e aquela diversão tinha prazo de validade, fiquei ainda por dois meses ali fazendo hidroginástica.

Estudei dezoito meses até a conclusão de meu curso técnico de mecatrônica. Logo após a conclusão do curso, passei em uma seleção interna na Mercedes para estagiar na manutenção.

Eu era da logística e minha atividade exigia menos de minha exposição física, porque as minhas atividades consistiam mais em operar máquinas e controlar estoques informatizados. Foi na manutenção que começou a se tornar mais nítida a perda de forças nas pernas, tendo em vista as atividades de manutentor, pois eu tinha que subir escadas constantemente, trabalhar dependurado em cintos de segurança e fazer tarefas de exigência física maior do que eu estava habituado a fazer até então.

Percebi que a coisa era séria, porque já estava me prejudicando até no trabalho.

Lembrei-me que minha mãe queixava-se de cansaço nas pernas, além de ter muitas varizes. Segundo os m éd icos ela faleceu em d ecorrência d a esclerodermia.

Procurei por conta própria um angiologista para consultar e pedir um encaminhamento para outro exam e e tentar a p ossibilid ad e d e d etectar algu m problema relacionado à esclerodermia.

Dr. Ednaldo, um experiente médico aparentando uns cinquenta e quatro anos, pediu-me que fizesse o exame que eu tinha sugerido e um outro de esforço para o coração.

O resultado foi negativo para anomalias nos dois exames, eu já nem ficava feliz com aquilo, pois alguma coisa estava muito errada comigo. Ninguém conseguia descobrir o que eu tinha, exame nenhum detectava algo que pudesse justificar a perda muscular e a fraqueza progressiva nas pernas, logo eu que sempre fui praticante de esporte e após os anos comecei repentinamente ter esses sintomas…

Seria engraçado se não fosse trágico!

Durante todo esse tempo em que passei indo a estes especialistas, experimentando sem sucesso tratamentos baseados em achismos, além de outros recursos que tentei por sugestão de familiares e amigos. Nessa hora, no intuito de ajudar, todos têm um médico ou uma receita para te indicar.

De pai de santo a compressa de mastruz com água quente e sal grosso eu experimentei, já não aguentava mais acumular tanta raiz em casa para fazer chá, que amigos me indicavam.

Tratamento espiritual e oração eram sagrados, mas os caras lá de cima já deviam estar cansados de tantos pedidos.

Ainda tinham aqueles que diziam e ainda dizem:

– Se você tiver fé, vai se curar.

Isso é pior ainda, porque se a cura não vem você fica se sentindo culpado achando que tem pouca fé… e aí como é que faz?

Certo dia, fui procurado por minha irmã Mônica que por indicação do médico de meu pai, sugeriu-me que procurasse um médico amigo dele que apesar de clínico geral, tinha quase cinquenta anos de medicina e conhecia tudo.

Já tinha ido a tantos médicos e não me custava ir em mais um, até para dar satisfação ao empenho de minha irmã que estava pagando a consulta, pois justamente esse não era do meu convênio.

Quando eu achava que já tinha feito todos os tipos de exames, ele me pediu um de sangue para ver meu índice de CPK, uma enzima relacionada aos músculos.

O resultado foi surpreendente para mim e serviu mais tarde para monitorar o desgaste ou fadiga muscular. O limite máximo normal era de cento e sessenta e o meu estava na casa dos trezentos e sessenta e posteriormente ao repetir o exame, só aumentava.

Procurei novamente Dr. Raimundo no ambulatório da Mercedes e manifestei minha preocupação com a gravidade do meu problema.

Ele então disse que iria me encaminhar para um Fisiologista amigo dele que tinha muita experiência em tratar casos semelhantes ao meu, e que trabalhavam juntos no Monte Sinai. E assim foi feito, por telefone mesmo Dr. Raimundo marcou um horário para mim com o tal médico.

Pausa para renovação de expectativas!

Desta vez com uma expectativa renovada, já que ele havia tratado de casos semelhantes ao meu, quem sabe agora eu descobriria com quem eu estava lutando.

Para a minha surpresa ao chegar à consulta, o médico era Dr. Marcelo, o mesmo que há dois anos havia feito o meu exame de eletroneuromiografia. A pedido do primeiro ortopedista que procurei e que me encaminhou a um conhecido neurologista que por sua vez achou que a alteração acusada no exame não merecia atenção naquele momento.

De imediato Dr. Marcelo me perguntou se eu tinha disponibilidade para internação e na mesma hora informei que sim. Imediatamente até com certo entusiasmo, pois nenhum outro médico tinha me pedido internação ainda e nem tinha sido tão enfático, pensei comigo… Agora eu encontro o diagnóstico!

Marcamos para a segunda-feira seguinte a internação no Hospital Monte Sinai, com o propósito de fazer uma bateria de exames que só poderiam ser feitos com internação, e ali estava eu, cheio de medo, mas a ansiedade falava mais alto.

Horas depois chegou Dr. Marcelo todo animado, explicando o planejamento que ele tinha traçado para os exames e se eu estivesse disposto à punção, poderíamos fazer no mesmo dia.

Opa! Pensei e respondi entusiasmado como se tivesse ganhado algum prêmio, sem imaginar o que me esperava: – Agora mesmo! Dr. Marcelo .

Então ele saiu do quarto dizendo que iria buscar o material para fazer o tal exame. Não levou muito tempo e estavam de volta, ele com mais três pessoas, duas estagiárias em neurologia e um rapaz também estagiário.

Então me vesti com aquele avental ou sei lá como posso chamar aquilo, que só cobre parte do corpo, deixando a parte das costas exposta.

Deitado de lado, com um enfermeiro me ajudando a abraçar meu joelho, só podia ouvir o barulho do metal na bandeja que Dr. Marcelo havia trazido envolvida num pano branco.

Alguma conversa baixinha entre médico e estagiários e eu senti um algodão com uma coisa gelada nas costas, certamente para fazer assepsia do local. A orientação do Dr. Marcelo era a seguinte: – Procure manter-se relaxado, você vai sentir uma picadinha, um rápido formigamento no pé e uma pressão na nuca, tudo isso faz parte, ok?

E eu fingindo estar cheio de coragem diante de tanta gente, disse: – Ok, vamos lá.

Ele ainda brincou: – Você até parece que já fez esse exame cara! Eu dei uma risadinha falando: – Já fiz tantos que um a mais ou a menos… se fosse para conseguir um diagnóstico não iria fazer diferença.

E na primeira agulhada eu pude sentir, ardida, contundente, mas nem o formigamento e nem a pressão na nuca eram sentidos, então era sinal de que o local não era ali. Depois de cutucar com a agulha um pouco mais ele resolveu tirá-la e tentar um pouco mais abaixo.

Ele procurou conversar comigo sobre a minha família ou coisa parecida para me distrair, mas eu já não estava mais a fim de papo e doido para que aquela tortura acabasse logo.

Novamente parecendo querer me sacanear disse: – Relaxe, vamos tentar novamente e quando sentir o formigamento me avise.

Eu suava, sentia dor de barriga, dor nas costas, raiva, um monte de coisa, menos o formigamento…

Após movimentar a agulha para várias direções ele decide buscar outro ponto.

Então falei: – Espera um pouco, deixe-me respirar porque estou suando e está me faltando ar nesta posição.

Estiquei o corpo, respirei um pouco e mais aliviado voltei à posição para uma nova tentativa. Aliás, a terceira… e de repente, como um choque embaixo do pé, o doutor disse: – É aqui,  finalmente! Ele posicionou melhor a agulha e aí pude sentir a tão esperada pressão na nuca, que ficou por uns cinco minutos, talvez um pouco mais e pronto, estava concluído.

Fazendo piadinha o Dr. Marcelo ainda me disse: Ô sujeito difícil sô!

E eu já mais à vontade respondi: – No dos outros é refresco né…

Antes de sair do quarto ele me informou da coleta de material pela manhã para um exame de sangue e à tarde faríamos novamente o exame de eletroneuromiografia para comparar com o outro que eu havia feito há dois anos.

Primeira das muitas estadas

Foi uma noite relativamente agradável, a primeira no Hospital. Nunca em toda minha vida havia sido internado até então, mas na companhia de minha esposa, ficamos ali conversando e esperançosos com o resultado dos exames para termos finalmente um diagnóstico e começar logo um tratamento definitivo.

Ao amanhecer entra a moça do laboratório, muito educada e delicada que coleta o material e me libera a dieta.

Em seguida a visita de um fisioterapeuta que faz algumas avaliações e solicita que eu faça alguns movimentos e me informa das visitas diárias que seriam feitas por ele enquanto eu estivesse por ali.

Muito bem, chegou a tarde e estava na hora de cumprir mais uma etapa dos exames. Lá ia eu de cadeira de rodas pelo hospital, porque paciente no Monte Sinai só anda pela parte interna dos leitos de cadeira de rodas. Dois andares abaixo e chegávamos na sala de fisiologia.

O exame é fácil de imaginar, vou traduzir em palavras as minhas emoções para seu entendimento. Coloca-se aquele aventalzinho sexy de hospital, deitase numa maca de barriga para cima e o doutor passa um gel geladinho no dedão e no meio do peito do pé, em seguida coloca uma plaquinha com um fiozinho ligado a um aparelho que por sua vez é acoplado ao computador. Dispara-se uma descarga elétrica e as plaquinhas mandam um gráfico de sua reação muscular para o computador. O procedimento se repete em várias partes do pé, perna, coxa, braços e depois de barriga para baixo, é feito o mesmo processo no calcanhar, panturrilha, coxa e coluna.

Após essa sessão de tortura, quando você pensa que acabou, vem o melhor da festa. Os mesmos pontos são examinados, desta vez, ao invés de placas são introduzidas agulhas, é um procedimento parecido com acupuntura; as agulhas são presas por uma espécie de mini-alicates, os fios são ligados ao computador para registrar as reações musculares. Incomoda bastante, mas em compensação o médico se diverte muito.

Esse exame pode levar até uma hora se for feito nos membros inferiores e superiores como eu fazia.

Cumprida toda a bateria de exames, jà era noite quando comecei a tomar a medicação na veia, com previsão de cinco dias de internação.

No dia seguinte veio o Dr. Marcelo com o diagnóstico.

Bola na trave

Polirradiculoneuropatia (mais adiante saberão porque bola na trave) era esse o diagnóstico e iríamos começar com um tratamento experimental para ver como meu organismo reagiria.

A medicação a base de corticoides, entrava gelada na veia e o meu coração disparava, causando tremedeira no corpo inteiro, uma sensação de desconforto muito grande e no quinto e último dia daquelas sessões de aplicação, eu mal conseguia comer alguma coisa no hospital.

Após a alta fui para casa e por quatro dias tive que tomar Meticorten e ir reduzindo as doses até passar a tomar um quarto do comprimido e finalmente sentir meu corpo voltar ao normal.

Normal é força de expressão porque na verdade ele nunca mais voltou ao normal e com aquela medicação parecia piorar.

Nesta época eu comentava com Dr. Marcelo sobre os sintomas que minha mãe tinha e que minha prima Ana Maria chamava de “a doença da vovó”, pois achava que era a mesma doença de minha avó materna. Mas o médico ignorava dizendo que o que eu tinha era uma doença adquirida e que minha mãe segundo eu mesmo havia dito, teria morrido vítima de esclerodermia, o que realmente constou em seu atestado de óbito e não havia relação alguma com os meus sintomas.

Passaram-se trinta dias e novamente, seguindo a programação de meu neurofisiologista, cumpri nova internação com a mesma medicação pelos mesmos cinco dias. Os mesmos foram cumpridos sobre protesto, pois as reações eram de muito mal-estar, falta de apetite aceleração cardíaca e muita fraqueza muscular.

Desta vez ao invés de me afastar do serviço por cinco dias, me afastei por quinze e antes de voltar a trabalhar, marquei consulta com Dr. Marcelo para buscármos uma alternativa, pois aquele tratamento estava me fazendo mais mal do que bem.

Nem fisioterapia no hospital eu conseguia mais fazer nos últimos dias, tamanho era a minha fraqueza e tremedeira por conta daquela droga na veia.

Ele então me disse que existia uma droga excelente para esse tipo de tratamento, só que o plano da Mercedes provavelmente não autorizaria porque eles teriam que desembolsar o valor de uma mercedes Classe A a cada internação.

Mesmo assim pedi a requisição e fui falar com Dr. Raimundo na fábrica para tentar a autorização da tal droga que se chama Imunoglobolina humana.

É uma proteína pura, extraída de um processo feito com sangue, segundo especulação minha e não estudo, dizem que para cada grama dessa droga é preciso mililitros de sangue.

O ser humano como prioridade

Ao expor para Dr. Raimundo as minhas reações com relação ao tratamento em busca de respostas para toda aquela transformação física, e diante de uma possibilidade de cura, eu não poderia recuar. Ele não ponderou, autorizou imediatamente o hospital a compra da droga, que tinha que ser solicitada com antecedência por ser importada, muito cara e não se encontrar em farmácias.

Previsão de dias melhores já me confortavam bastante naquele momento. Pelo menos me sentia respeitado e amparado pela empresa onde eu trabalhava e que me proporcionava todo o recurso disponível naquele momento, na tentativa de cura para m inha d oença, até então tid a com o

Polirradiculoneuropatia.

Marcamos então nova internação seguindo o mesmo critério das anteriores, cinco dias no hospital tomando medicação e trinta dias em casa.

No hospital, apesar de muito sofisticado e atender uma diversidade de pacientes com  os mais diferentes problemas de saúde, muitos enfermeiros não conheciam a droga Imunoglobulina humana, e era claro para mim a dificuldade que eles tinham de manipular a droga e a máquina que controlava o gotejamento.

O processo consistia no seguinte: vinha do laboratório em uma caixa com um vidro cheio de uma solução cristalina igual água, que era o diluente e outro vidro quase vazio, só com algumas gramas de um pó branco e um objeto de duas pontas que ao ser introduzido de um lado no vidro contendo o pó e do outro o diluente simultaneamente, passava o diluente para o vidro onde estava o pó e num processo aparentemente de sucção causava efervescência, homogeneizando aquela mistura. No mesmo vidrinho, se conectava o acesso da agulha na veia (mangueirinha do soro), passando pela máquina que controlava o gotejamento, que durava duas horas por frasco.

Eu tomava cinco frascos a cada dia, não me causava reação alguma, exceto uma vez que mudaram o laboratório. Segundo o meu médico, a droga era a mesma, mas o percentual do laboratório em um dos componentes do diluente era diferente e já no primeiro frasco me causou mal-estar, febre, taquicardia, a ponto de suspendermos a aplicação no momento e no dia seguinte eu receber alta para aguardar a compra de nova dose da medicação, vinda do laboratório anterior.

A cada internação acontecia alguma coisa, um estresse por conta de manipulação duvidosa de algum atendente. Às vezes na troca de plantão assumia uma pessoa mal-informada que atrasava na troca da droga ou demoravam para começar a aplicação, outrora tinha que chamar alguém porque aquele profissional que deveria me atender não sabia manusear a máquina ou porque a medicação estava dando bolha, fazendo com que a máquina parasse o tempo inteiro.

Autodidata em enfermagem

De tanto os ver manipular a medicação que teria que ser feita no quarto e sob uma temperatura mínima de dezoito graus, aprendi muito.

A medicação saia da geladeira para o paciente e eu participava do preparo da medicação até a programação da máquina de gotejamento.

Muito atento a todos os procedimentos e perguntando bastante o porquê de cada ação, comecei eu mesmo a fazer todo o processo e resolver os problemas cada vez que a máquina apitava apontando alguma irregularidade no processo.

Assim eliminava um pouco o estresse me fazendo sentir mais importante dentro daquele contexto, onde minha participação era esperar que algo de novo acontecesse.

O hospital era igual a hotel, se você fica apenas um dia, tudo parece perfeito, mas se começa a ficar mais tempo e dependente dos serviços da casa, passa a perceber que é o contrário do que parecia, ali também estava cheio de falhas. Algumas falhas relevantes e que com o passar do tempo o desgaste só aumentava.

Ao chegar na recepção do hospital, eu solicitava um quarto no primeiro andar, pois assim estava com uma equipe de atendentes que já me conhecia e eu os deixava mais tranquilos por saberem que eu administrava bem minha própria internação.

Já haviam se passado quinze internações e mais de um ano de expectativas naquele tratamento com aquela droga tão promissora e que infelizmente não conseguia sentir melhora alguma, muito pelo contrário, só sentia minhas dificuldades e limitações aumentarem. Até na fisioterapia enquanto eu estava internado, a postura já começava a mudar.

Sinais de cansaço

Ao invés deles tentarem fortalecer a minha musculatura e recuperar os meus movimentos, eles começavam a me condicionar de forma a trazer adaptação e conforto diante de minhas limitações.

O meu médico tentava sem sucesso me animar mostrando algumas reações através dos exames que mensalmente eu fazia, mas nada me convencia. Na verdade eu só continuava, porque mal não poderia me fazer e quem sabe com o tempo meu organismo desse uma resposta mais positiva ao tratamento.

Dr. Marcelo havia dito certa vez que outro paciente com os mesmos sintomas, levou seis meses para apresentar melhoras com aquela droga, quem sabe fosse uma questão de tempo, eu pensava…

De seis em seis meses, eu repetia o tal exame chamado eletroneuromiografia. Esse exame causava tanto desconforto que a Uta, uma de minhas irmãs, que também apresentavam os mesmos sintomas, fez uma única vez e disse que nunca mais o faria.

Foi feito um exame laboratorial até nos Estados Unidos, que apenas descartou suspeitas médicas de ser outra doença, não apontando outro caminho senão aquele que já trilhávamos.

Acompanhei um caso de um colega de trabalho que participou de um intercâmbio nos Estados Unidos, era de praxe da Mercedes a troca de experiências profissionais. Neste caso específico, o colega padecia de uma doença diagnosticada como sendo esclerose múltipla, que em certos casos, apresentam sintomas semelhantes aos meus. Em paralelo ao intercâmbio com objetivo de trocar experiências profissionais, ele fez uma avaliação e tratamento por lá.

Infelizmente sua decepção foi proporcional às suas expectativas. Nada adiantou estar nos Estados Unidos, pois o diagnóstico não mudou e os sintomas menos. O resultado desta experiência foi o mergulho em um quadro depressivo ao retornar ao Brasil meses depois.

Eu continuava as minhas investidas no Monte Sinai, acreditando que a qualquer momento pudesse acontecer algo de extraordinário. Era mais pela credibilidade de meu médico do que por um sentimento próprio. Eu me sentia muito impotente diante daquela realidade, bastante desanimado embora visse por ali casos bem mais tristes do que o meu.

As pessoas me viam andando pela sacada do hospital, arrastando aquela maquininha cheia de teclas parecendo um microcomputador, e aparentemente saudável, ficavam curiosos para saber o que havia acontecido comigo, o que eu estava recebendo de medicação e era assim que eu conhecia muita gente e também ouvia muitas histórias.

Um problema realmente grave

Histórias como a de D. Laura que tinha sua filha internada pela terceira vez com problemas renais tendo que ser submetida pela terceira vez a uma cirurgia delicada. Uma linda menina que aos dezesseis anos não tinha concluído o ensino médio, por não poder frequentar as aulas. Uma adolescente que não podia bater papo embaixo no prédio onde morava, muito menos brincar, ir à festas com os amigos. Normalmente passava por longas internações à espera de um transplante que não desse rejeição ou alguma droga que lhe poupasse de tantas infecções e sofrimento.

Desejo de uma mãe que só pedia a Deus pela vida da filha. Não precisava ser a mais bonita nem a melhor aluna, mas aqueles desejos que qualquer pai e mãe querem para seus filhos, uma adolescente saudável.

Estas e outras histórias provocavam em mim profundas reflexões, por isso compartilho com você que talvez esteja gozando de boa saúde e possa pensar a respeito.

Era duro ouvir estas e muitas outras histórias da vida real.

Somando forças

Eu buscava me fortalecer com tudo o que eu presenciava e com o que eu tomava conhecimento por conversar com algumas pessoas pelos corredores do hospital.

Tentava levar uma palavra de alento aos que ali estavam, uma palavra de força que às vezes eles mesmos me achava qualificado para tanto, tendo em vista a minha história de vida e o alto astral que eu tentava manter apesar de tudo.

Minha família esteve sempre presente e eu sempre tentei não contaminá-los com os meus problemas, afinal, somos espirituosos e sempre muito alegres, não perdendo uma boa piada. E nada ajudaria ficarmos dando dimensões a um problema maior do que ele merece.

Eu só era doente no hospital, saía dali, eram animadas reuniões em minha casa, as festinhas de finais de semana sempre que possível continuavam a acontecer na casa de um ou de outro.

O tempo passava e eu já havia tentado de tudo que estivesse ao meu alcance. As internações de sonho viraram pesadelos, pois não conseguia a cura e com o tempo, começou a me trazer reações que eu não tinha.

Não suportava mais aquela comida de hospital, minha fraqueza muscular era maior e a frustração com o tratamento era visível. Comecei a sentir febre alta e calafrios, uma sensação horrível, pois tudo que eu tentasse comer voltava. Cada médico de plantão que me examinava, mandava trocar o acesso da veia, mas eu insistia em dizer que era da medicação e só passaria se eu tomasse novalgina cristalizada na veia. Por várias vezes já havia passado por aquela experiência, mas como paciente é paciente, tem que ser cumprido o protocolo do hospital.

Então me davam um tylenol, trocavam o acesso e depois de umas duas horas e meia sem melhora, sessões de álcool com água morna pela virilha, axilas e embaixo do pé, eles se rendiam à minha ignorância, aplicando a novalgina cristalizada e vinte minutos depois, eu estava pronto para outra!

A gota d’água

Numa dessas crises de febre estavam comigo no hospital meus filhos Gabriel e Marina. Um pouco assustados com o quadro porque eu sentia calafrios de não conseguir segurar um copo para tomar água. Os dois seguindo a orientação da enfermeira ficaram horas colocando compressas de álcool com água na tentativa de amenizar minha febre. Aquilo para mim já tinha ido além da conta.

Nas internações seguintes, eu já recomendava ao Dr. Marcelo que deixasse prescrito novalgina cristalizada em caso de febre, porque assim seriam menos médicos de plantão dando palpite e a internação transcorreria mais suave e suportável.

Sem esquecer que após duas semanas da minha alta no hospital eu tinha que retornar ao consultório do Dr. Marcelo para conversar e fazer novas avaliações.

Nada de extraordinário, exames com aquelas agulhinhas que eram espetadas aqui e ali para testar sensibilidade, uma ponta mais rombuda embaixo da sola do pé testando meus reflexos, um martelinho no joelho, um caminhar na ponta do pé para avaliar a capacidade muscular e muitos outros testes.

A esta altura já haviam se passado vinte e duas internações e eu há um bom tempo estava afastado do serviço. Consegui cumprir as duras provas de meu estágio, mas o sonho de seguir carreira como manutentor na Mercedes ficou para outra encarnação.

Já não podíamos levar mais a diante aqueles insistentes procedimentos médicos, com o mesmo tratamento sem sucesso. Era chegada a hora de tentar algo diferente. Por cobrança minha e também por consciência do meu neurologista, teríamos que nos render a um exame de DNA ou uma biópsia para reforçar o diagnóstico de um mal que não sedia diante de um tratamento tido como sendo tão eficaz.

O meu médico optou pela biópsia. No dia seguinte, apareceram os enfermeiros que me prepararam para dar um breve passeio de maca até o centro cirúrgico. Nada traumatizante, muito pelo contrário, foi até um passeio interessante, igualzinho a estes que vimos na televisão. Eu estava tão seguro que não precisei de ninguém da família para me esperar no quarto após o procedimento. A demora me deixou um pouco apreensivo, mas ficamos ali trocando piadinhas até a chegada do anestesista e do meu neurologista. Uma hora e meia depois, eu estava de volta ao quarto.

Por isso, bola na trave

Uma semana depois, Iara foi ao consultório do Dr. Marcelo  buscar o resultado e para nossa surpresa e decepção um novo diagnóstico.

A minha luta não era com a polirradiculoneuropatia, mas com Amiotrofia Espinhal (AME), uma sigla bem sugestiva AME, mas cruel, degenerativa e irreversível.

Teríamos mesmo que ter muito amor à vida como sugeria a sigla da doença para seguir com resignação e aceitação, afinal aquele laudo era na verdade uma condenação. Aquele resultado estava me trazendo a consciência de que eu deveria esquecer alguns desejos e sonhos como jogar bola com meu filho, fazer capoeira, natação, bailes com minhas filhas…

Foi um soco no estômago, eu e a Iara nos olhávamos como se não quiséssemos acreditar naquilo tudo. Ficamos calados, talvez a imaginar como seria ruim abrir mão de tanta coisa boa que gostaríamos de fazer juntos, mas tínhamos que retornar para casa e contar para as crianças.

E assim fizemos, sem muitos detalhes, falamos que eu não me internaria mais porque esse tratamento não estava surtindo efeito e por enquanto não tinha na medicina uma cura para o meu problema, pois era uma doença degenerativa e progressiva.

De posse desse novo laudo, só me restou entrar com pedido de aposentadoria. Nesta época eu já andava com auxilio de muletas e não podia mesmo retornar ao trabalho. Tempo depois, meu pai e meus irmãos se uniram e me presentearam com um carro.

Foi uma ação inesquecível! No dia do meu aniversário eles entregaram um envelope com algumas fotos de carros e pediram que eu escolhesse. Foi muito lindo aquele gesto de desprendimento, generosidade e preocupação em facilitar a minha locomoção.

Facilitou e muito a minha vida, pois eu ainda conseguia dirigir e podia ir aonde quisesse. Fazer compras,visitar pessoas e passear com a família. Isso fazia eu me sentir útil.

Aposentar e comprar uma casa era um sonho antigo, mesmo porque a vida inteira eu convivi com o fantasma do desemprego, o medo de perder emprego e passar necessidade.

Acho que devido ao baixo nível de escolaridade, o despreparo para o mercado de trabalho, desenvolvi em mim o pavor em ficar desempregado.

Com o passar dos anos, terminei o ensino médio, procurei fazer outros cursos oportunos na área de atuação e aos poucos esse pavor foi diminuindo à medida que eu me capacitava, sentindo-me qualificado e assim aumentando as possibilidades de trabalho. Em definitivo, isso só acabaria depois da minha aposentadoria.

Então o destino permitiu que em virtude dessa doença, eu realizasse estes dois sonhos.

Ironia do destino

Devido à doença aposentei-me, e por força de minha invalidez recebi um seguro que me proporcionou a construção de nossa tão sonhada casa.

Na época, morávamos em Juiz de Fora e pagávamos aluguel. Então resolvi que minha casa seria construída na cidade onde fui criado e a adotei como minha cidade mãe.

Assim fizemos, construímos nossa casa já com algumas adaptações à minha condição física e também prevendo algumas limitações, já que a doença é degenerativa e progressiva.

Naquele tempo eu ainda andava com auxilio de muletas e podia administrar a obra, mas a engenharia civil foi toda da Iara.

Um amigo nosso de Juiz de Fora, o Jorge, marido da Teresinha irmã da comadre Dodora, que por sinal é engenheiro e dos melhores, fez muitos elogios à dinâmica da casa planejada pela Iara.

Hoje recebo meus irmãos, sobrinhos, amigos e colegas de meus filhos, na minha tão sonhada casa própria.

Agora sentado em minha cadeira de rodas, posso compartilhar das muitas rodas de bate-papo divertidas que aconteceram e ainda acontecem em minha casa.

Esta minha nova condição de cadeirante fez com que as pessoas prestassem mais atenção em mim e eu nelas. Despertou-me a sensibilidade para as coisas guardadas que eu não achava tempo para desenvolvê-las.

O que escrevo, o que digo, as observações que faço sobre as coisas e as pessoas, sempre estiveram em mim, porém hoje tive que achar um tempo para expô-las, refletir, ler mais e desenvolver novos caminhos para seguir com serenidade e sabedoria.

De toda a caminhada feita até aqui ficam as boas lembranças dos momentos de alegria e as lições dos momentos difíceis. De que nos servem todas as provações da vida se não tirarmos ensinamentos delas? Não perdemos tempo com lamúrias, nunca nos reunimos para lamentações.

Assim, tento fazer de cada dia uma oportunidade de aprendizado como sempre foi, só que agora o desafio é mais solitário.

É como se houvessem dois desafios: um que todos participam e diz respeito ao meu convívio social, e o outro comigo mesmo. Desde o início do tratamento, em minhas primeiras internações, eu recebia a visita da psicóloga, por recomendação de meu neurologista, pois os procedimentos eram agressivos e traziam momentos de solidão podendo ocasionar uma depressão. Segundo ele, é muito comum desenvolver esse quadro nesses casos.

Com o diagnóstico da amiotrofia espinhal acabaram-se as internações, já que não há cura. A visita da psicóloga até o momento não foi necessária, na verdade não entendia o que ela ia fazer no quarto do hospital, pois só falávamos de receitas de culinárias e de aprontações da minha infância, nada além disso.

Confesso que por mais incrível e inacreditável que possa parecer aos olhos dos outros, o meu desafio interno é mais harmonioso. Talvez porque dependa só do meu autocontrole, o que de certa forma consigo manter uma coerência mais fiel e o outro já depende de muitas coisas como coerências e incoerências. Algumas pessoas se sentem mais confortáveis no papel de juízes, e por isso às vezes é mais complicado nos harmonizármos com o exterior.

Ora te tratam como coitadinho, ora ignoram toda a sua luta esquecendo das suas vitórias diárias, e apenas julgam pelo bel-prazer de ter o que falar. Tão superficiais quanto seus próprios objetivos.

Hoje conseguimos manter uma harmonia domiciliar entre minha família e a minha condição de cadeirante, portador de uma doença degenerativa, progressiva e incurável. Apesar de bem informados com relação à doença, todos nós vivemos sem deixar nos contaminar com o futuro.

O presente é o que temos de concreto e vivê-lo é o que tentamos fazer da melhor maneira possível. Minha mulher muito companheira faz com que minhas limitações sejam desafios diários a serem vencidos e me ajuda na adaptação, sem constrangimentos ou traumas. Os meus filhos às vezes parecem esquecer das minhas limitações, fazem planos para saírem, se arrumam e depois se flagram de que eu não posso ficar sozinho em casa. Aí só saem após a chegada da Iara que não tem hábito de se ausentar por muito tempo. Há sempre alguma coisinha para fazer na rua como supermercado, banco e até o que diz respeito à manutenção do carro que por enquanto ela é a única pessoa habilitada da casa, já que há dois anos não consigo mais dirigir.

Família a toda prova

Passamos recentemente por uma experiência que colocou à prova essa nossa disponibilidade de nos doarmos uns aos outros.

A Iara ao tentar me passar da cadeira de banho para a outra, quebrou a perna. Quebrou em pé, sozinha sem sofrer nenhuma pancada, simplesmente quebrou com o meu peso. E agora, o que fazer?

O que era difícil ficou mais complicado ainda…

Contando com a generosidade e bom senso de meu cunhado Jairo, patrão de meu filho, ele liberou o Gabriel até que a perna da Iara estivesse curada e foram sessenta dias até que isso acontecesse.

Tiramos uma boa lição disso tudo, pois uma vez que eu e a Iara ficamos mais dependentes de nossos filhos, a situação nos aproximou mais e quebrou alguns constrangimentos, como por exemplo, ir ao banheiro com auxilio de uma de minhas filhas.

Hoje tratamos isso com naturalidade, seja para o banho ou outra necessidade. Felizmente os meus filhos herdaram o nosso bom humor e não perderam a oportunidade de uma boa piada, tornando os meus dias bem humorados e proveitosos.

Acompanho de perto o crescimento deles e que fazem importante a minha opinião, tudo como sempre foi. Não deixando sobrar espaço para frustrações ou pensamentos depressivos.

O tempo que temos pertence a cada um e não nos é dado a conhecer os desígnios de Deus, então não seria sábio deixar o amanhã destruir o hoje que pode ser feliz e está sendo uma razão evolutiva para todos que compartilham da mesma convivência. Seria como fazer mau uso de uma oportunidade dada por Deus, fazer o bem ao próximo e deixar um legado bacana de luta, perseverança e resignação.

A minha vontade de viver, a capacidade de superação que mantiveram ao meu lado, amigos que conquistei por onde andei.

Casos pontuais

Gostaria de mencionar nesta obra a visita de algumas pessoas por se tratarem de casos extremos, de pessoas que há muitos anos eu não via e talvez não nos encontraríamos mais devido às ocupações de cada um e as minhas também. São fatos pontuais que fizeram e estão fazendo a diferença em minha vida e consequentemente na vida de minha família.

Amigos como o Sr. Evilásio, que tive a grata satisfação de conhecer em Brasília. Um gaúcho de Butiá, com muita vivência, que construiu uma linda família longe de casa e fez de sua infância pobre, um alicerce para estruturar sua brilhante carreira profissional no Distrito Federal. Fortalecendo seus princípios morais como bom pai e bom conselheiro. Fui presenteado com a sua ilustre visita. Viajou mais de mil quilômetros de sua confortável residência, com tantos afazeres para visitar este “insignificante” amigo e admirador.

Outro feedback de minha estada em locais por onde morei, foi a visita do quarteto, Cinthia, Robson, Diego e Boing, amigos que fiz quando morei em Brusque, Santa Catarina, que deixaram aquele litoral maravilhoso para viajar mais de três mil e duzentos quilômetros. Isso para mim foi um presente incomensurável! Jamais iria imaginar que eu pudesse ser prioridade entre quatro jovens amigos de uma região tão rica de lugares maravilhosos para passar férias e também com tantos outros amigos, aliás, muitos que tive a oportunidade de conviver e compartilhar a amizade. Fui contemplado com esta alegria de tê-los em minha casa. Foram dias memoráveis, com muita festa e cantorias até a madrugada como nos velhos tempos.

Os tios de Brasília, os irmãos de meu pai, com histórias tão diferentes da minha, passamos horas juntos e trocando experiências.

Primos como Romildo e Dilson que há anos eu não via e pude recentemente recebê-los em minha casa em um grande churrasco promovido por eles e a esposa que eu não conhecia.

Alguns primos e primas que moram mais próximos de minha cidade, mas que há muito não nos víamos.

Houve até um aniversário muito marcante, o de minha prima Sueli e da tia Nininha. Elas resolveram fazer desta data um encontro da família Pereira. A festa foi em um espaço onde havia piscina, campo e quadra de futebol além de uma área espetacular para festas, com salão, churrasqueira e de fácil acesso, foi realizado uma inesquecível festa de aniversário, onde eu classifiquei como cem por cento Pereira. Muita gente bonita, muitos jovens e outros já nem tanto.

Bons reencontros e oportunidade de conhecer alguns parentes que eu só conhecia por ouvir falar. Casos, boas conversas e muita alegria, um astral maravilhoso, foi assim que decorreu a festa. Além de um acontecimento especial que me marcou muito.

Na época a Iara tentava comprar uma cadeira de rodas adequada às minhas necessidades, só que o valor era muito além do que nosso orçamento poderia cumprir e mesmo com uma boa parte que ela já havia conseguido com suas irmãs, sobrinhas e primos em Santa Catarina, ainda faltava bastante.

Tal fato foi levado ao conhecimento de Sueli, que por iniciativa própria mobilizou-se e conversando com alguns dos presentes fez um ato muito legal. Ao me despedir de todos para retornarmos a Bicas, ela me entregou um envelope e quando o abri para a minha surpresa estava o restante do dinheiro que faltava para a compra da cadeira que eu precisava.

Dias depois veio em minha casa um primo de Juiz de Fora que ficou sabendo do ocorrido e dizendo sentir-se mal por não ter participado de tal ação de carinho, quis me presentear com alguma outra coisa que eu estivesse precisando, então me presenteou com uma cadeira de banho.

Sem falar nas visitas da Taiza com sua filha Michele e netinha Yasmim de Santa Catarina, que se desdobraram para vir nos visitar, como também minha sogra D. Nilza e minha outra cunhada Beatriz do Rio Grande do Sul, que apesar dos afazeres do dia a dia, ainda conseguiram tempo e apertam o orçamento para vir nos ver.

São momentos de felicidade que faço questão de relatar porque creio trazer alegria até para quem fica sabendo destas manifestações de amizade e amor.

Por que escrever?

Comecei a escrever esse relato na intenção de passar a quem interessasse, informações sobre a Amiotrofia Espinhal (AME).

A minha experiência é apenas mais uma que desafia a medicina e por enquanto cheguei ao limite do que já se conhece sobre ela.

Infelizmente é muito pouco, principalmente para mim que entre os nove irmãos, quatro já tem os casos confirmados da doença e nenhum dos outros está fora do risco, considerando a estatística de idade e frequência da doença em parentes já pesquisados por nós.

É curioso a diversidade de diagnósticos e de critério dos médicos para diagnosticar os mesmos sintomas ou sintomas parecidíssimos, a julgar pelos cinco casos em minha casa observe: minha mãe só recebeu o diagnóstico, após a morte como sendo esclerodermia. Eu após tratar um diagnóstico de Estresse Muscular, posteriormente Polirradiculoneuropatia e por fim Amiotrofia Espinhal, mediante a uma constatação pela biópsia. Minha irmã dois anos mais nova está com uma possível Esclerose Lateral Amiotrófica, mas o laudo foi dado apenas verbalmente por um neurologista, após o exame de eletroneuromiografia.

Com esse mesmo critério usado por um outro neurologista, tenho também uma prima com o mesmo diagnóstico Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). E minha irmã mais velha que eu dois anos, o mesmo diagnóstico que a outra, ELA dado pelo mesmo neurofisiologista que me atendia durante esses três anos de tratamento. Por último, um irmão quatro anos mais novo, com o mesmo diagnóstico baseado apenas em um exame de eletroneuromiografia.

Minhas irmãs tem ido ao Sarah Kubischeck um hospital no Rio de Janeiro, com a finalidade de somar informações a um estudo neurologico que aquele hospital desenvolve, todos nós nos inscrevemos para voluntários, mas só as duas foram chamadas até o momento.

Em minha mãe, os sintomas começaram a aparecer aos quarenta anos e ela morreu em pouco mais de um ano. Minha irmã mais nova começou a manifestar os sintomas aos quarenta e dois anos e a outra aos quarenta e seis, em mim aos quarenta e em meu irmão aos quarenta e três.

Meu histórico

Por volta dos quarenta anos comecei com uma fraqueza muscular nos membros inferiores. Era como se as pernas tivessem pesadas para correr ou até mesmo caminhar mais rápido, mais sensível ao subir escadas.

É claro que é visível também a perda de massa muscular, em seguida começa a refletir na cintura, exigindo uma sustentabilidade maior nos braços, e também no caso de sentar e levantar, por exemplo. Começa a perda por sustentações como andar na ponta dos pés, certo desequilíbrio em andar sobre uma linha reta pintada no chão, fatos que pude comprovar através de exercícios que fiz ao longo dos tratamentos fisioterápicos com diferentes profissionais e diferentes clínicas, até começar a afetar os membros superiores, causando desconforto em parar os braços na mesma posição por muito tempo, movimentos finos como pegar um palito sobre a mesa ou uma agulha, se tornam impossíveis. Começam a aparecer os engasgos seco, uma tosse que vem do nada ou um engasgo com ar ou saliva. Deixo aqui uma dica que tem me valido muito.

Uma grande sacada

Muito mais que qualquer outro tratamento que eu tenha feito até agora, um muito eficaz é a fonoterapia que te ensina a relaxar, a respirar corretamente a usar as cordas vocais corretamente, ensina a mastigação ideal, como engolir e até mesmo falar evitando o transtorno do engasgo.

Tudo isso através de exercícios simples que você pode fazer em casa e sozinho.

O importante é que o portador dessas ou qualquer outra limitação, procure se conhecer e analisar o que é melhor para si.

Eu tive o meu momento de andar lentamente como se estivesse com um peso nas pernas e depois me arrastar com um pouco mais de dificuldade, passando a utilizar a muleta canadense.

Mais tarde aumentaram as dificuldades e passei a usar duas muletas, sem nunca esperar uma queda para provar que eu precisava usá-las.

Infelizmente existem alguns profissionais que orientam o paciente a evitar a muleta ou a cadeira sob pena de se tornar dependente dela pelo resto da vida ou ainda antecipar uma necessidade que ainda não é a sua, pois esperam o paciente se acidentar primeiro para constatar a necessidade.

O médico não sabe tudo e no caso destas doenças degenerativas sabem menos ainda, é preciso se conhecer e se prevenir quanto à integridade física e estar atento às suas necessidades, a do ambiente onde transita no dia a dia para não antecipar e também não protelar cuidados essenciais à sua segurança.

 Atualmente estou numa cadeira de rodas que me proporciona maior independência e locomoção dentro de minha casa que já construí sem degraus e de portas largas prevendo o dia que eu precisasse usar a cadeira.

Começo a sentir a manifestação da atrofia muscular também em minha coluna na parte cervical, como agora que estou escrevendo e fazendo força para manter meu pescoço ereto e suportar a dor na cervical.

Hoje estou com quarenta e oito anos e convivendo há oito com a doença. Sei que não há cura, mas existem formas de conviver bem com as limitações.

Às vezes até esqueço que sou portador de necessidades especiais me envolvendo em projetos que não posso corresponder à altura.

No carnaval aqui em minha cidade, sou compositor da escola de samba em minha comunidade desde 2009, aproveito para deixar aqui as minhas composições que desfilaram na avenida nestes dois últimos anos.

 IGUALDADE RACIAL (carnaval 2009)

CONTA NOSSA HISTÓRIA,

QUE NO TEMPO DA ESCRAVIDÃO

O  NEGRO  ERA  AÇOITADO,

NO TRONCO  ERA  AMARRADO

COMO PROVA DE PUNIÇÃO

DE LÁ  PRA  CÁ,  MUITA  COISA  MUDOU

REESCREVEMOS NOSSA HISTÓRIA

HOJE NEGRO É CRAQUE DE BOLA

PELÉ É O REI DO FUTEBOL

NELSON MANDELLA,

É UM LÍDER MUNDIAL

É UMA LENDA VIVA

CONTRA O PRECONCEITO RACIAL

NÃO TEM MAIS ZUMBI

NEM QUILOMBO DOS PALMARES

VIEMOS PRA AVENIDA EXALTAR

A IGUALDADE

ATÉ O TIO SAN (REFRÃO)

QUE SEMPRE BOTOU BANCA

ELEGEU O OBAMA PRA

OCUPAR A CASA BRANCA

RENASCER (carnaval 2010)

O SAMBA É SANGUE QUE

CORRE NA MINHA VEIA

INCENDEIA, INCENDEIA…

(ALÔ TIRA COURO VEM COMIGO, VEM)

TUM TUM TUM BATE FORTE A BATERIA

HOJE É DIA DE FESTA

É CARNAVAL SÓ ALEGRIA,

COMO NUM CONTO DE FADAS

ELA TAMBÉM ADORMECEU

A ESPERA DE UM BEIJO ENCANTADO

ÁLVARO DIAS O SEU PRÍNCIPE SOU EU

COM A MAGIA DO SAMBA

E DE MUITA GENTE BAMBA VOCÊ RENASCEU

COMO O SOL QUE TRAZ A LUZ PRO DIA (RE

FRÃO)

VOCÊ TROUXE ALEGRIA DE VIVER (REFRÃO) HOJE MATAMOS A SAUDADE

A NOSSA COMUNIDADE É BONITA DE SE VER

COM JURAS DE AMOR ETERNO

ÁLVARO DIAS VOU TE AMAR ATÉ MORRER

TUM TUM TUM BATE FORTE O CORAÇÃO

TO DE VOLTA NA AVENIDA

EXPLODINDO DE EMOÇÃO

TUM TUM TUM BATE FORTE A BATERIA

HOJE É DIA DE FESTA

É CARNAVAL SÓ ALEGRIA… (REFRÃO)

Uma questão de opção

Essa é a minha história, como muitos, passei pelas mais variadas especialidades: ortopedistas, especialistas em coluna, angiologistas, neurologistas e diagnósticos diversos.

No meu caso que fiquei quase um ano fazendo exames sem saber o que eu tinha e depois tive um diagnóstico de Polirradiculoneuropatia. Após vinte e duas internações para cumprir uma rotina de um suposto tratamento, chegou-se a uma conclusão de que o diagnóstico estava errado e através de uma biópsia foi descoberta a Amiotrofia Espinhal. O famoso adversário contra quem eu lutava todo esse tempo.

Nada a fazer senão cuidar bem da cabeça. Inevitavelmente essa doença nos leva à atrofias diversas e o que faz a diferença nessa hora é a boa convivência com elas.

Momentos de isolamento não podem ser tomados como solidão, mas sim uma oportunidade de reflexão e relaxamento. Encarar os desafios de frente e com bom humor para deixar as pessoas a sua volta à vontade em se manifestar, ajuda sem constrangimento.

Desde um auxilio para sentar ou levantar, sair do carro, subir degraus ou ir ao banheiro, tudo requer uma adaptação mais psicológica do que motora. Ao invés de se sentir humilhado por sua dependência, observe como você está cercado de pessoas que pode contar e que querem estar de alguma forma fazendo parte de sua vida, tornando-a o mais confortável possível e renovável a cada desafio, e por que não mais vitoriosa já que os desafios são diários?

A cada ajuda, desfrute da mão amiga que lhe erguem e nos ombros que te sustenta, aproveite os abraços. Já percebeu quantas pessoas passam dias e meses sem ganhar um abraço até mesmo dos filhos ou irmãos?

Todos os dias abraço e sou abraçado por minha mulher e meus filhos. É claro que eu gostaria de ser motivado por circunstâncias diferentes, mas se assim estou, faço deste, o lado bom, porque a máxima diz: “ter sempre um lado bom das coisas é real”, e assim tem que ser porque de outra forma, você elimina a única possibilidade de manter ao seu lado, velhos amigos e pessoas que valorizam a vida e fazem de cada dia uma oportunidade nova para ser feliz.

Ninguém suporta muito tempo a convivência ao lado de alguém que transmite negativismo, que mostra o quanto a vida pode ser cruel. Lembrar a todo instante que o mundo é cheio de percalços e que a qualquer momento você poderá se deparar com um desses por aí…

Introspecção

Olhe para dentro de si e me diga o que vê?

Consegue perceber que lá dentro, estão registradas as suas prioridades? Que pena quanto tempo perdido…

A casa, o carro, o status, tudo isso foi prioridade, e que bom, hoje faz parte das inúmeras vitórias…

Mas por que não as tem mais em seu interior?

Talvez porque a própria conquista seja o limite da busca e essa busca tenha um ponto final que é exatamente a realização.

O profissional, o empresário bem sucedido…

Onde está a diferença para uma pessoa de um viver bem sucedido?

O viver é estar bem consigo mesmo, é suceder sempre às conquistas morais e fazer delas uma série de conquistas. É saber participar do jogo da vida com cartas irrelevantes, diante da maestria dos grandes jogadores e de grandes trunfos. É saber blefar diante das dificuldades e virar a mesa defronte às adversidades.

Há momentos na vida que o ouro deixa de ser a moeda, os valores e as riquezas assumem outras formas.

Num determinado momento, a saúde é a maior riqueza e a teve até a chegada da doença. Mas no seu interior você pode observar que muitas noites foram jogadas fora, quanto estresse por coisas banais que a todo momento bombardeiam sua riqueza maior que é a sua saúde.

Mas ela não consta como prioridade no seu interior!

Percebe?

Percebe então que o seu patrimônio já não faz mais o mesmo sentido que antes ou talvez não faça sentido nenhum?

Talvez nessa hora você busque naquele seu subalterno mais humilde, aquela garra com que ele sempre lutou contra as adversidades da vida, jogando sempre com aquelas cartas irrelevantes, lembra? Possivelmente a cura que você precisa não esteja em laboratórios alopáticos, mas no laboratório da vida. Então essa manipulação tem que ser diária e com ingredientes distintos.

Imagino que tenha perdido tempo demais, mas não há mal sem cura. Comece agora, entre no jogo! Não espere cair em suas mãos um grande trunfo, porque ele pode não vir.

Comece a manipular sua receita a partir da perseverança, do amor a tudo e a todos, pratique o bom discurso, procure se relacionar com pessoas que te agregam valores, busque o lado bom das coisas e o que há de positivo nas pessoas.

Olhe novamente para dentro de você e tente tatuar essas prioridades em seu coração, ainda que tenhas perdido muito tempo, sempre haverá um tempo para reconciliação, o perdão, a descoberta de novos caminhos.

Então olhe para dentro de si e priorize o que há de mais incontestável e prioritário para o coração de quem ama: os seus filhos! Porque eles inevitavelmente serão o seu reflexo, o seu legado, o seu maior patrimônio. Não por uma questão biológica, mas pelos frutos a colher baseado no bom cultivo, ministrado por você ao longo da vida.

Portanto, priorize você! A sua saúde mental, pois muita gente pode estar precisando dela neste momento. Se dê conta do quanto você é importante.

Enfim, ame-se profundamente para que as pessoas possam amar-te.

Juiz de Fora, 19 de julho de 2005.

Quem sabe uma semente!

Faça, portanto, de sua experiência uma lição de vida para aqueles que sempre te admiraram e também por merecer os comentários de pessoas desconhecidas que falam de você, até mesmo as que te mandam emails, por ouvir falar de sua importância na vida das pessoas.

É sem dúvida, uma corrente que não pode ser tratada com descaso.

Não podemos nos dar o direito de nos achar a pessoa mais infeliz do mundo e simplesmente jogar por terra essa força capaz de promover mudanças benéficas na vida de muita gente. Em dias conturbados em que vivemos, onde o maior mal da humanidade é exatamente o que vem de dentro de cada um de nós.

Pensando assim, concluo que minha caminhada é muito mais do que uma missão, uma provação.

Não poderia deixar de registrar esse relato, que por mais despretensioso que possa parecer, já tem servido de alento a muitas pessoas amigas e familiares que fazem parte de minha vida, pois compartilhamos a mesma caminhada.

Aliás, essa caminhada não para aqui, eu continuo na luta!!!

A Força do Destino

 Pois é, eu poderia dar por encerrado o meu relato por aqui, não fosse o momento em que estou vivendo, por isso acho pertinente comentar.

Uma história que começou há três anos e meio mais ou menos, quando minha filha Marina com apenas 15 anos, começou um namorico com o Dudu, um garoto um ano mais velho. Apesar de eu e a Iara acharmos muito cedo para namorar, resolvemos conhecê-lo melhor. E por ela ser dedicada nos estudos e afazeres de casa, o relacionamento deles não iria atrapalhar em nada.

O Dudu é de família muito humilde, filho de mãe diarista e padrasto lavrador, parou de estudar e trabalhava de garçom eventualmente em um bufett de sua tia. Ele sonhava em ser jogador de futebol, o que nos preocupava, pois um jovem que poderia aproveitar melhor o seu tempo estudando, se limitar a um sonho tão incerto como o de ser jogador de futebol, afinal, numa cidade do interior onde as autoridades se quer investem em educação, quem dirá em esporte. O tempo foi passando e, após insistência, incentivo e ajuda de minha filha, ele conseguiu seguir com os estudos. Ele é um jovem determinado, muito respeitador e carinhoso com todos nós da família e amigos.

Foram muitas idas e vindas em clubes para testes e muitos “nãos” recebidos.

Até que um dia, após um teste, ele foi aprovado com a promessa de assinar contrato e convidado a jogar no juniores por seis meses, mas quando o time foi desclassificado, os jogadores contrato, foram dispensados, inclusive o Dudu. Mas ele seguiu tentando em outros clubes, apesar das dificuldades que não eram poucas, o custo da passagem, o local para ficar, a alimentação…

 E quando menos esperávamos, ele foi abordado em um teste no estado do Rio, por Fernando, um extécnico que havia trabalhado com ele no juniores naquele time que havia dispensado todos os jogadores sem contrato.

Marcos apresentou o Dudu a um olheiro belga que o convidou para fazer um teste no Espírito Santo e ficar por uma semana lá.

Deixava-nos inseguros o fato de uma pessoa vir da Europa para buscar atletas por aqui.

Uma semana depois ele retornou muito entusiasmado, com uma proposta era para ir para a Holanda. Conversou conosco e com sua mãe sobre a proposta. Ele estava muito seguro no que ouvira do tal belga chamado Marc.

Na semana seguinte ele estava indo para um centro de treinamento em Niterói, onde o Marc tem convênio. Foram uns 40 dias preparando o seu condicionamento físico para embarcar para Europa.

Correu tudo bem nos testes e hoje ele está jogando no Germinal Beschort, na Bélgica.

Marina, minha filha, foi morar com ele, estão noivos e de casamento marcado para abril próximo.

É incrível as voltas que a vida dá!

Mas os acontecimentos não param por aí…

Algumas coisas inesperadas aconteceram comigo recentemente.

Amanheci com um mal-estar, dores no estômago, calafrios e sudorese. O meu cunhado, minha irmã e Iara me levaram para o hospital em Juiz de Fora. Fui examinado por um plantonista que pediu alguns exames. Ao terminar a coleta de sangue, eu sentia falta de ar, entrei em apneia e seguida de parada cardíaca.

Posteriormente, constatou-se que minha glicemia estava baixíssima e as minhas dores eram resultado de duas úlceras hemorrágicas.

Fui encaminhado para a UTI em função da falta de ar e do quadro inicial sem explicação e lá fiquei por quatro dias que pareceram uma eternidade.

Incrível, como um local que sobra tecnologia pode faltar tanta sensibilidade, solidariedade e calor humano que não demanda investimento financeiro nenhum, apenas doação individual, comprometimento com a profissão que abraçou.

A falta de ar foi amenizada com o aparelho respiratório, mas eu não conseguia comer e não providenciaram nenhuma comida pastosa ou algo que pudesse atender às minhas necessidades, pois o alimento era essencial.

A cada dia eu apresentava um quadro diferente e sem melhoras, um dia era uma convulsão, noutro apneia ou nova parada cardíaca.

Minha filha que estava na Bélgica retornou e, todos os dias minha mulher e meus filhos se revezavam dentro do tempo permitido para UTI que era de trinta minutos para estarem comigo.

Quatro dias foram suficiente para eu desistir de tudo, a ponto de falar com minha mulher que eu não aguentava mais lutar. A presença de meus filhos e minha mulher pedindo que eu fosse forte e que eu era um exemplo de superação, não poderia entregar os pontos, pois todos esperavam de mim uma reação como sempre foi.

Após o período na UTI, o hospital alugou um aparelho respiratório chamado BIPAP e, no mesmo dia fui transferido para o quarto. Daí por diante com o carinho e a presença das pessoas que me visitavam, fui melhorando e me fortalecendo. No segundo dia, já me alimentava quase normalmente e usava o BIPAP somente para dormir.

Fiquei mais doze dias no quarto e depois recebi alta.

Hoje uso BIPAP em casa no período da noite. Estou de volta à vida, com uma experiência de quem pedia a Deus só mais um dia para ter tempo de dizer à minha família o quanto são importantes e o quanto os amo. E Deus na sua infinita bondade concedeu-me uma nova oportunidade de viver, apesar de um pouquinho mais de limitações, mas com uma aceitação ainda maior do que antes.

Tenho recebido o carinho de parentes, pessoas que eu não via há anos e agora estamos em contato constantemente, inclusive nos visitando.

Não sei quanto tempo ainda a vida me reserva, mas os meus dias têm sido vivenciados com maior intensidade.

Voltei a escrever e a compor.

Este ano de 2011 dos sambas que compus após minha saída do hospital, três estarão na avenida.

São eles:

 É NÓIS NA FITA

(Marchinha do bloco água de côco)

É NÓIS NA FITA NA AVENIDA FEITO LOUCO

O NOSSO BLOCO É CHAPA QUENTE

É O ÁGUA DE CÔCO

 

O NOSSO BLOCO É ARRASTÃO

VAI ROUBAR SEU CORAÇÃO TODA VEZ QUE ELE PASSAR

CARNAVAL É ALEGRIA

SÓ VAI DAR CÔCO FOLIA

NOITE E DIA SEM PARAR

 

MAS QUATRO DIAS É  MUITO POUCO

PRA QUEM BRINCA FEITO LOUCO

NO BLOCO ÁGUA DE CÔCO

 

CÔCO FOLIA HEI

CÔCO MANIA RÁ

VEM NESSA ONDA

QUE ESSA ONDA VAI PEGAR

CÔCO FOLIA HEI

CÔCO MANIA RÁ

VEM NESSA ONDA

E DEIXA A ONDA TE LEVAR

ABRAM ALAS PARA O HV

(Chiquinha Gonzaga) – HV – 2011

 

ABREM-SE AS CORTINAS

QUE O SHOW VAI COMEÇAR

CHEGOU  TSUNAMI VERDE E ROSA OI ABRE ALAS PARA O HV PASSAR.

 

DE UM SONHO, A REALIDADE

NA AVENIDA PARA RECORDAR

CHIQUINHA GONZAGA ABRE ALAS

PARA AS MARCHINHAS DA ALEGRIA

DESFILAR

 

CIDADE MARAVILHOSA

CHEIA DE ENCANTOS MIL,

HOJE O QUE RESTA É SÓ SAUDADE,

MAIS AINDA ÉS, O CORAÇÃO

DO MEU BRASIL

 

O ALEQUIM AINDA CHORA

NO MEIO DA MULTIDÃO

E O MEU CHORO É SÓ SAUDADE

BELAS MARCHINHAS QUE EMBALAVAM

NO SALÃO

 

TIRANDO COURO (samba tira couro 2011)

HOJE É NOSSO DIA

NOSSO MOMENTO NESSA FESTA SEM IGUAL

DESFILANDO A ALEGRIA

SOU TIRA COURO E ESSE É NOSSO CARNAVAL

 

ARRUMEI UMA MULINHA

PRA BRINCAR O CARNAVAL

A ORELHA EU FIZ DE MOLA

E O RABO FIZ DE FOLHA DE JORNAL

 

MEU BLOCO NÃO TEM LUXO NEM RIQUEZA

NOSSA BELEZA É A NOSSA UNIÃO

UM POVO QUE TRABALHA O ANO INTEIRO

EM FEVEREIRO SE TRANSFORMA EM FOLIÃO

 

HOJE EU VOU TIRAR SEU COURO

VOU FAZER VOCÊ SAMBAR

DESFILANDO NA AVENIDA

FELIZ DA VIDA ATÉ O DIA CLAREAR

 

CORRE, PULA E SAMBA NA AVENIDA

O NOSSO BOI VAI TE PEGAR

E SE VOCÊ NÃO DER NO COURO

O  NOSSO BLOCO TA AQUI PRA TE ENSINAR

 Tenho conversado com tanta gente importante que fez parte de minha infância; primos que há muito não nos víamos e que talvez eu esteja sendo injusto em não tê-los citado neste relato. Eles merecem, mas aqui ficará a minha gratidão pelo carinho que me foi dado neste momento em que precisei. As portas foram reabertas, as mesmas que há muito tempo estavam entregues ao esquecimento. Talvez por comodismo, pela distância, até mesmo pelos caminhos que cada um optou seguir e às vezes acabamos priorizando outras coisas e nos envolvendo com compromissos e não nos damos conta de que o tempo passou.

Esse episódio da minha internação mexeu muito com o meu emocional e o de pessoas que eu sempre convivi, mas nunca tinha visto manifestações de sentimentos tão intensos, como o de chorar e de dizer te amo.

Para alguns parece ser mais difícil, e às vezes é mais difícil exatamente para aquele que mais lhe dá demonstração de amor.

Por essas e outras, mesmo num momento de dor, pude tirar proveito da experiência e constatar o quanto estamos envolvidos com pessoas importantes, o quanto somos importantes para as pessoas. Temos que ter o pensamento sempre voltado em fazer o melhor porque viver, sempre vale a pena!!

 

 

 

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